Roteiro na Europa 15 dias: Letônia, Estônia e Finlândia: de Riga a Helsinque

Roteiro na Europa 10 dias: Letônia, Estônia e Finlândia: de Riga a Helsinque

O que você vai encontrar nesse artigo

Um roteiro Europa de 10 dias pelos Países Bálticos e Helsinki: Riga, Letônia, Tallinn, Estônia e Helsinki, Finlândia: de Riga a Helsinque.

Em outubro de 2025, eu e a Elizabeth atravessamos três países que, para muitos brasileiros, ainda permanecem fora dos roteiros mais tradicionais da Europa. Durante quinze dias, percorremos a Letônia, a Estônia e a Finlândia em uma viagem que combinou cidades medievais, florestas douradas pelo outono, estradas quase vazias e algumas das paisagens mais bonitas que já vimos no norte da Europa.

O roteiro começou em Riga, capital da Letônia. De lá, alugamos um carro e seguimos viagem rumo ao norte, passando por Sigulda antes de cruzar a fronteira com a Estônia. Depois de alguns dias explorando Tallinn, embarcamos em uma balsa pelo Mar Báltico até Helsinque, encerrando a jornada na Finlândia.

Roteiro 15 dias nos Bálticos: Riga, Letônia, Tallinn,  Estônia e Helsinki, Finlândia: de Riga a Helsinque.

À primeira vista, parecia apenas uma viagem por três países vizinhos. Mas, ao longo do caminho, descobrimos três mundos completamente diferentes. A Letônia me surpreendeu pela elegância discreta de Riga e pelas paisagens de outono do Vale do Gauja. A Estônia revelou uma das cidades medievais mais bem preservadas da Europa. E a Finlândia me apresentou uma capital moderna, cercada por mar, ilhas e natureza.

O que eu ainda não sabia quando desenhei esse roteiro era que a viagem guardava uma surpresa que transformaria tudo. Em uma noite fria de outubro, em Helsinque, eu finalmente realizaria um sonho que carregava desde a infância: ver a aurora boreal dançando no céu pela primeira vez.

Mas essa história começa muito antes daquelas luzes verdes aparecerem no horizonte.

Um roteiro que nasceu maior do que Helsinqueroteiro Europa de 10 dias pelos Países Bálticos e Helsinki

Quando começamos a planejar essa viagem, a ideia era simples: Helsinque, ponto final, e o sonho de ver a aurora boreal. Mas a capital finlandesa fica a um pulo dos Países Bálticos, uma região que ainda não conhecíamos, e parecia um desperdício passar por Riga e Tallinn sem parar. Foi assim que nasceu um roteiro de 10 dias: começamos em Paris, voamos para a Letônia, atravessamos a Estônia de carro e terminamos a viagem de balsa, na Finlândia. Três países, três idiomas e histórias muito diferentes, conectados por estradas emolduradas pelas cores do outono e por uma travessia pelo Mar Báltico.

Roteiro 15 dias nos Bálticos: Riga, Letônia, Tallinn,  Estônia e Helsinki, Finlândia: de Riga a Helsinque.

Saímos de Paris de avião até Riga, onde alugamos um carro direto no aeroporto. Dali em diante, o volante ficou com a gente até a última fronteira: Riga, parada em Sigulda, Tallinn, e só depois a balsa rumo à Finlândia. Reservamos três noites em cada cidade báltica e quatro em Helsinquem, tempo suficiente para conhecer com profundidade, sem a pressa de quem tenta abocanhar um continente inteiro em uma semana.

A AirBaltic, com sede em Riga, mostrou que uma companhia regional pode oferecer uma experiência eficiente, confortável e sem complicações.

Riga: folhas de outono e a capital mundial do Art Nouveau

Nossa road trip pelos países bálticos começou em Riga, capital da Letônia. Foi ali que desembarcamos após o voo vindo de Paris, retiramos o carro alugado no aeroporto e demos início a uma viagem que nos levaria por castelos medievais, florestas douradas pelo outono e algumas das cidades mais fascinantes do norte da Europa.

Antes mesmo de sair do estacionamento do aeroporto, vale uma dica importante para quem pretende dirigir na Letônia: fique atento aos estacionamentos públicos identificados pela sigla PID. Eles são comuns em diversas áreas da cidade e funcionam por aplicativo ou pagamento eletrônico. Entender o sistema logo no início da viagem ajuda a evitar multas e dores de cabeça.

Leia mais: Onde Ficar em Riga, Letônia: Melhores Bairros e o Radisson Blu Daugava, o Hotel Perfeito na Beira do Rio

Era um daqueles dias típicos de outono báltico: céu cinzento, temperatura baixa e uma garoa fina que parecia fazer parte da paisagem.

As árvores exibiam tons amarelos, dourados, laranjas e avermelhados, enquanto as torres da Cidade Velha surgiam ao fundo como uma pintura.

Foi nossa primeira impressão de Riga e continua sendo uma das lembranças mais bonitas de toda a viagem.

O centro histórico de Riga, reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO, preserva séculos de história em um espaço relativamente compacto. Durante a Idade Média, a cidade tornou-se um dos principais centros comerciais da Liga Hanseática, poderosa rede de cidades mercantis que dominava boa parte do comércio no Mar Báltico e no norte da Europa.

Essa prosperidade deixou marcas visíveis até hoje. Caminhar pela Cidade Velha é atravessar diferentes períodos históricos em poucos quarteirões. Em uma mesma rua aparecem construções góticas, edifícios barrocos, fachadas neoclássicas e monumentos que testemunharam as transformações políticas da região ao longo dos séculos.

Sem pressa, fomos explorando as pequenas ruas de paralelepípedos, as praças escondidas e os edifícios históricos que surgiam a cada esquina. Um dos lugares mais interessantes para observar é a Praça da Prefeitura, onde fica a famosa Casa dos Cabeças Negras, uma das construções mais emblemáticas da cidade. Embora o edifício atual seja uma reconstrução posterior à Segunda Guerra Mundial, ele reproduz fielmente o esplendor do original, destruído durante os bombardeios.

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Construída no século XIV para abrigar a Irmandade dos Cabeças Negras, formada por comerciantes solteiros, a Casa dos Cabeças Negras tornou-se um dos maiores ícones históricos de Riga.

Outro símbolo importante é a Catedral de Riga, cuja história remonta ao século XIII. Mas foi a Igreja de São Pedro que acabou nos proporcionando um dos momentos mais especiais da visita.

Entramos sem grandes expectativas, apenas para conhecer o interior da igreja, e fomos surpreendidos por um concerto acontecendo naquele exato momento, gratuitamente. Sentamos por alguns minutos nos bancos de madeira e deixamos a música preencher aquele espaço centenário. Viajar também é isso: encontrar experiências que não estavam no roteiro e que acabam se tornando algumas das memórias mais marcantes.

A Catedral de Riga, fundada em 1211, é a maior igreja medieval dos Países Bálticos e um dos principais símbolos da história e da arquitetura da Letônia
A Catedral de Riga, fundada em 1211, é a maior igreja medieval dos Países Bálticos e um dos principais símbolos da história e da arquitetura da Letônia

Onde comer em Riga: Restaurante Ala Pagrabs

O dia passou tão rápido entre passeios e descobertas que nem percebemos a hora. Quando nos demos conta, já era 18h, então fizemos um típico “almojanta” de viajante e decidimos experimentar um dos restaurantes mais famosos de Riga: o Ala Pagrabs.

Localizado em antigos porões subterrâneos de pedra, o restaurante oferece uma experiência que vai muito além da gastronomia. O ambiente lembra uma taverna medieval, com salões abobadados, iluminação suave e uma atmosfera que transporta os visitantes para a época em que Riga prosperava como importante porto comercial do Báltico.

Ali tivemos um primeiro contato mais próximo com a culinária letã. Entre os pratos tradicionais estão carnes assadas lentamente, batatas preparadas de diversas formas, sopas robustas e pães escuros típicos da região. A gastronomia local reflete o clima rigoroso do norte europeu, privilegiando ingredientes simples, nutritivos e bastante saborosos.

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Para conhecer os pratos típicos da Letônia, poucos lugares são tão autênticos quanto o Ala Pagrabs, um dos restaurantes mais tradicionais da Cidade Velha de Riga.

Durante a noite, voltamos a caminhar pela Cidade Velha.

Riga assume uma personalidade completamente diferente depois que escurece. As fachadas iluminadas ganham destaque, os prédios históricos ganham um ar ainda mais dramático e o centro antigo parece saído de um filme. Em geral, a cidade transmite uma atmosfera tranquila e elegante, especialmente fora da alta temporada.

Naquela noite, porém, encontramos uma Riga bem diferente. Não sabemos ao certo se havia algum jogo importante acontecendo, mas os bares e pubs da Cidade Velha estavam lotados, com mesas ocupando as calçadas e grupos de amigos acompanhando partidas em telões. O clima era animado, descontraído e surpreendentemente vibrante para uma noite fria e chuvosa de outono. Sem destino definido, caminhamos pelas ruas medievais observando esse contraste curioso entre a arquitetura centenária e a energia dos frequentadores, aproveitando uma faceta da capital letã que não esperávamos encontrar.

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Na manhã seguinte, como a chuva e o frio continuavam, começamos o dia com calma.

Aproveitamos o café da manhã do hotel e reservamos algumas horas para relaxar no spa antes de continuar explorando a cidade. Foi uma pausa bem-vinda no ritmo intenso da viagem.

Mais tarde seguimos para um dos lugares mais surpreendentes de Riga: o Mercado Central.

À primeira vista, o Mercado Central de Riga já impressiona pela escala. São cinco pavilhões monumentais, e poucos visitantes sabem que a estrutura metálica de cada um veio de hangares de zepelins construídos pelo exército alemão entre 1915 e 1917, na base aérea de Vaiņode, no sul da Letônia.

Na época, esses hangares eram chamados de Walhalla e Walther. Quando a Alemanha se retirou da Letônia após a Primeira Guerra Mundial, a jovem nação independente já não tinha utilidade para essas estruturas militares, mas enxergou nelas a solução perfeita para abrigar um mercado que já não cabia às margens do rio Daugava.

As estruturas foram desmontadas, transportadas e remontadas no centro de Riga entre 1924 e 1930, após seis anos de obras. O resultado foi o que, na época da inauguração, era considerado o mercado coberto mais moderno da Europa. Hoje, o conjunto faz parte do sítio histórico de Riga, reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO.

Cada pavilhão tem sua própria especialidade, com setores dedicados a carnes, peixes, laticínios e hortifrúti. Percorrê-los é descobrir os sabores mais tradicionais da Letônia, do pão de centeio escuro aos peixes defumados, passando pela lendária lampreia em geleia, uma iguaria típica que desperta a curiosidade de muitos visitantes, mas é provada por poucos.

Experimentar uma cerveja artesanal da Labietis no Mercado Central de Riga foi uma forma de conhecer um pouco mais da cultura gastronômica letã, que vem ganhando destaque pela qualidade de suas cervejarias independentes.

Entre os corredores do mercado, também encontramos um dos produtos mais tradicionais dos países bálticos: o âmbar. Conhecido como o “ouro do Báltico”, ele é encontrado em joias, objetos decorativos e pequenas peças de artesanato vendidas por toda a região. Elizabeth, como sempre, não resiste a uma lembrancinha e acabou entrando na tradição que muitos brasileiros conhecem bem: a de voltar de viagem com algum presentinho para a família.

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Ela disse que escolheu um pequeno presente de âmbar para sua mãe, e para seu pai, um peixe defumado típico da região, que podia ser transportado sem problemas, pois estávamos com mala de mão.

Curiosamente, poucos povos parecem cultivar tanto esse hábito quanto nós. Não importa a distância da viagem ou o tamanho da mala; sempre damos um jeito de levar para casa algum objeto, sabor ou memória que permita compartilhar um pedacinho da experiência com quem ficou esperando nossa volta.

Depois do mercado, dedicamos parte da tarde a conhecer outro aspecto pelo qual Riga é mundialmente famosa: sua arquitetura Art Nouveau.

Embora muitas pessoas associem esse estilo arquitetônico a cidades como Paris, Bruxelas ou Viena, Riga possui uma das maiores concentrações de edifícios Art Nouveau do planeta. Entre o final do século XIX e o início do século XX, a cidade viveu um período de forte crescimento econômico, e inúmeros prédios residenciais foram construídos seguindo as tendências arquitetônicas mais modernas da época.

As fachadas são impressionantes. Máscaras, esculturas, figuras mitológicas, flores, animais e elementos decorativos cobrem edifícios inteiros. Caminhar pelas ruas Alberta iela e Elizabetes iela é quase como visitar um museu a céu aberto.

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Depois de admirar as famosas fachadas Art Nouveau da Rua Alberta, aproveitamos para visitar o Museu Jānis Rozentāls e Rūdolfs Blaumanis, instalado em um dos edifícios históricos da avenida.

O museu vai muito além de uma exposição sobre o artista. Trata-se do próprio apartamento onde Jānis Rozentāls, um dos fundadores da pintura profissional letã, viveu entre 1904 e 1915. O imóvel ocupa um edifício construído em 1903 pelos arquitetos Konstantīns Pēkšēns e Eižens Laube, considerado um dos mais importantes exemplares da arquitetura Art Nouveau de Riga.

Nesse contexto, aproveitamos para conhecer o Museu Jānis Rozentāls e Rūdolfs Blaumanis, na Rua Alberta — a mesma rua que já tínhamos percorrido admirando as fachadas Art Nouveau.

O apartamento número 9 preserva o ambiente em que Jānis Rozentāls viveu e trabalhou ao lado da esposa, a cantora de ópera finlandesa Elli Forssell. Entre 1906 e 1908, o escritor Rūdolfs Blaumanis, considerado um dos maiores nomes da literatura letã, também morou ali como inquilino. Hoje, o apartamento abriga uma sala memorial dedicada à sua obra.

Caminhar por esses cômodos é voltar à Riga do início do século XX, uma cidade que vivia um período de grande efervescência cultural e arquitetônica. Foi nessa mesma época que surgiram os hangares de zepelins posteriormente transformados no Mercado Central e que a cidade ganhou muitas das fachadas Art Nouveau que hoje fazem de Riga uma das capitais mais fascinantes da Europa.

Nesse contexto, aproveitamos para conhecer o Museu Jānis Rozentāls e Rūdolfs Blaumanis, na Rua Alberta — a mesma rua que já tínhamos percorrido admirando as fachadas Art Nouveau.

Buscando um ritmo mais tranquilo, seguimos depois para o Parque Kronvalda.

Poucos visitantes sabem que, até meados do século XIX, esse terreno não era jardim algum: era zona de guerra. Riga era então uma fortaleza fronteiriça do Império Russo, cercada por bastiões, fossos e uma faixa de terra propositalmente vazia, para que nenhum abrigo escondesse um inimigo. Quando as fortificações foram desmontadas, em 1863, o antigo fosso virou o canal da cidade que hoje corta o parque ao meio, e o terreno raso deu lugar a um jardim de atiradores, mantido pela sociedade alemã de tiro de Riga.

O parque só foi aberto ao público em 1927 e, na década de 1930, recebeu o nome de Atis Kronvalds, linguista letão e uma das principais figuras do movimento de despertar nacional do século XIX. A escolha foi simbólica: um dos maiores defensores da língua, da educação e da identidade nacional passou a dar nome a um espaço que, durante séculos, existiu exclusivamente para proteger as muralhas da cidade.

Cercado por árvores tingidas pelos tons do outono, o parque oferecia exatamente o que procurávamos: silêncio, natureza e a oportunidade de observar um pouco da vida cotidiana dos moradores de Riga. Era difícil imaginar que, séculos antes, aquele mesmo espaço fazia parte do sistema defensivo da cidade e era inacessível ao público.

Para encerrar nosso tempo em Riga, decidimos vê-la por um novo ângulo.

Reservamos a Excursão de Barco pelo Canal Histórico com Guia de Áudio através do GetYourGuide e embarcamos para um passeio pelos canais da cidade e pelo rio Daugava.

Embarcamos no píer de Bastejkalns, a poucos passos do Monumento à Liberdade. Era dali que o barco partia e, cerca de uma hora depois, retornava ao mesmo ponto.

O passeio começa pelo Canal de Riga que, como contamos anteriormente, foi construído sobre o antigo fosso que protegia as muralhas da cidade. Navegamos exatamente pela linha que, durante séculos, separou a Riga medieval do mundo exterior. Em seguida, o barco passa pelas margens arborizadas do Parque Kronvalda e pelo Teatro Nacional Letão. Depois, alcança o rio Daugava, cruza sob as pontes Akmens e Vanšu e oferece uma bela vista do Castelo de Riga, residência oficial do presidente da Letônia. A partir dali, retorna ao canal até completar o circuito de volta ao píer de Bastejkalns.

Foi uma das experiências mais agradáveis da viagem. Em apenas uma hora, o percurso reúne, sob uma perspectiva completamente diferente, muitos dos lugares que exploramos a pé ao longo de vários dias. História, arquitetura e a evolução urbana de Riga se conectam em um único trajeto pelas águas da cidade.

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Na manhã seguinte, seguimos viagem rumo a Sigulda e ao Parque Nacional do Gauja. Mas Riga já havia conquistado um lugar especial na nossa memória. Além da nossa porta de entrada para os Países Bálticos, encontramos uma cidade que soube preservar sua história sem abrir mão da vida contemporânea. Entre edifícios Art Nouveau, mercados históricos, parques, museus e ruas medievais, descobrimos uma capital vibrante e surpreendente. No outono, quando as árvores se tingem de amarelo e vermelho, Riga parece revelar uma de suas versões mais bonitas.

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Escolhemos nos hospedar no Radisson Blu Daugava Hotel, hotel localizado às margens do rio Daugava, do lado oposto ao centro histórico. A localização se revelou perfeita. Além da vista privilegiada para as torres medievais da Cidade Velha, permitia chegar ao coração histórico de Riga em poucos minutos de caminhada.

Depois de deixar as malas no hotel, seguimos a pé em direção à famosa Ponte de Pedra, que atravessa o rio Daugava.

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Como se deslocar por Riga:

Riga é uma cidade feita para ser explorada a pé. O centro histórico e a maior parte do bairro Art Nouveau ficam próximos um do outro, permitindo conhecer as principais atrações sem depender de transporte público.

Para deslocamentos mais longos, como o Mercado Central, Mežaparks ou o aeroporto, a rede da Rīgas Satiksme é eficiente e cobre toda a cidade com bondes, trólebus e ônibus. As passagens custam a partir de € 1,15 quando compradas antecipadamente em quiosques ou pelo aplicativo oficial, ou € 1,50 diretamente no veículo, sempre com validação no embarque.

O ônibus 22 faz a ligação entre o Aeroporto de Riga e o centro da cidade em cerca de 30 minutos. Como alugamos um carro apenas para continuar a viagem até Sigulda e, depois, à Estônia, optamos por deixá-lo parado enquanto explorávamos a capital. Durante toda a nossa estadia, fizemos praticamente tudo a pé.

Como se deslocar por Riga:

Na nossa última noite em Riga, jantamos no Galleria Riga, um shopping de sete andares no coração da cidade que reserva a melhor surpresa lá em cima: um rooftop no oitavo andar, com restaurantes de onde se vê o horizonte de Riga em 360 graus.”

Sigulda: a “Suíça da Letônia”

Na manhã seguinte, depois do café da manhã, partimos de carro em direção a Tallinn. A primeira parada foi em Sigulda, localizada a cerca de uma hora de Riga. Apelidada de “Suíça da Letônia”, a cidade é famosa pelas paisagens do vale do rio Gauja, onde florestas, penhascos e castelos medievais formam um dos cenários naturais mais bonitos do país.

Em pleno outono, a região parecia pronta para um filme de época. As encostas estavam cobertas por árvores em tons de ocre, amarelo e dourado, criando um cenário impressionante ao lado das falésias de arenito espalhadas pelo Parque Nacional do Gauja.

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Foi ali que conhecemos uma curiosidade que não esperávamos: escondida entre essas falésias fica a Caverna de Gutmanis, a maior e mais alta de todo o Báltico, formada há mais de dez mil anos pelo derretimento do gelo sobre a rocha arenítica, a atração turística mais antiga da Letônia. Suas paredes guardam inscrições de visitantes desde 1654, e foi ali, segundo a lenda, que nasceu a história da Rosa de Turaida, uma das mais conhecidas do folclore letão.

Para atravessar o vale, embarcamos no bondinho de Sigulda. Inaugurado em 1969, ele é o teleférico mais antigo dos Países Bálticos. O percurso tem pouco mais de um quilômetro, é realizado a cerca de 40 metros de altura e dura aproximadamente sete minutos. Durante a travessia, o vale do rio Gauja se revela por completo, com uma vista privilegiada dos três castelos que marcaram a história da região: Sigulda, Turaida e Krimulda.

O teleférico liga Sigulda a Krimulda, do outro lado do rio.
Andando de teleférico pela Letônia com a mesma cara de quem está decidindo se confia na engenharia soviética de 1969. O teleférico foi construído justamente durante o período em que a Letônia fazia parte da União Soviética, entre 1940 e 1991. O sistema mecânico veio de Leningrado, atual São Petersburgo, enquanto o vagão foi fabricado na tradicional Fábrica de Vagões de Riga. Mais de cinco décadas depois, ambos continuam em operação.

Ao desembarcar do lado de Krimulda, a primeira coisa que se vê são as ruínas do Castelo de Krimulda, erguido ainda no século XIII. Diferente de Sigulda e Turaida, esse castelo nunca foi reconstruído depois de destruído por um incêndio no início do século XVII, restam só fragmentos de pedra tomados pelo mato, ao lado do casarão do antigo solar que hoje funciona como pousada.

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Basta caminhar alguns minutos para avistar os outros dois castelos que dominam o vale. Assim como o Castelo de Sigulda, eles foram erguidos no século XIII, quando cada margem do rio Gauja estava sob o domínio de um senhor feudal diferente. É raro encontrar tanta história concentrada em tão pouco espaço.

É o tipo de lugar que interrompe o ritmo urbano da viagem e revela uma face diferente dos países bálticos, mostrando que sua beleza vai muito além das capitais.

Infelizmente, a chuva foi constante durante nossa passagem por Sigulda e acabou limitando o tempo que passamos ali. Conseguimos apreciar a paisagem, mas sem explorar muito a região como gostaríamos. Saí com a sensação de que Sigulda merece uma visita mais longa, especialmente em um dia de tempo firme, quando suas trilhas, castelos, cavernas e mirantes podem ser aproveitados em toda a sua plenitude.

Tallinn: o contraste que a chuva (e o sol) acentuaramroteiro de 10 dias pelos Países Bálticos e Helsinki

Seguimos de carro da Letônia até a Estônia, e a mudança de atmosfera entre Riga e Tallinn foi quase cinematográfica. Durante boa parte da nossa passagem pela capital letã, a chuva e o céu cinzento criaram um cenário elegante, porém melancólico. Quando cruzamos a fronteira e chegamos a Tallinn, tudo parecia diferente. O céu havia se aberto em um azul intenso, daqueles que imediatamente transformam o humor de qualquer viajante.

Talvez tenha sido apenas uma coincidência meteorológica, mas a sensação era de ter atravessado não apenas uma fronteira política, e sim uma fronteira de cores e emoções. Riga ficou na memória envolta em nuvens e chuva, enquanto Tallinn surgiu luminosa diante de nós, com suas muralhas medievais, torres históricas e telhados avermelhados iluminados pelo sol.

Confesso que adoro viajar no frio e tenho uma teoria pessoal, ainda sem qualquer comprovação científica: quanto mais azul o céu, mais frio faz. A Elizabeth nunca acreditou muito nessa ideia. Mas, naquele dia, nem tentou contestar. Bastou colocar os pés na Cidade Velha de Tallinn para trocar a chuva que nos acompanhou na Letônia por um céu de um azul intenso. Sob a luz cristalina do outono, a cidade parecia saída de um conto de fadas.

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A Cidade Velha de Tallinn é, sem exagero, uma das áreas medievais mais bem preservadas da Europa. Entramos pelo Portão Viru e caminhamos por um labirinto de ruas de paralelepípedo cercadas por antigas casas de mercadores, igrejas medievais e muralhas que atravessaram séculos praticamente intactas. Construídas a partir do século XIII para proteger uma das mais importantes cidades da Liga Hanseática, essas fortificações chegaram a se estender por cerca de 2,4 quilômetros e contavam com 46 torres de defesa. Grande parte desse conjunto permanece de pé até hoje e, em alguns trechos, é possível caminhar sobre as muralhas, percorrendo o mesmo caminho usado pelos antigos sentinelas para vigiar a chegada de mercadores e possíveis invasores.

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Talvez seja justamente esse contraste que torne Tallinn tão fascinante. Dentro das muralhas está uma cidade que preserva quase oitocentos anos de história. Do lado de fora, cresce a capital de um dos países mais inovadores da Europa, referência em governo digital, serviços públicos eletrônicos, educação, planejamento urbano e qualidade de vida. Ao mesmo tempo, a Estônia mantém um forte compromisso com a preservação ambiental e possui um dos territórios mais cobertos por florestas do continente. Poucas capitais europeias conseguem unir, de forma tão harmoniosa, um patrimônio medieval tão bem preservado e uma visão tão moderna de futuro. Caminhar por Tallinn é perceber que preservar a história não significa viver no passado, mas construir o futuro sem abrir mão da própria identidade.

Roteiro 15 dias nos Bálticos: Riga, Letônia, Tallinn,  Estônia e Helsinki, Finlândia: de Riga a Helsinque.
Subimos também até Toompea, onde a clássica vista dos telhados vermelhos, das torres históricas e das fortificações ajuda a entender por que Tallinn foi reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO.

Para enxergar a cidade de outro ângulo, encaramos a subida da torre da Igreja de São Olavo.

Poucos sabem que essa torre já foi, entre 1549 e 1625, considerada a construção mais alta do mundo — chegou a quase 159 metros, servindo de farol para embarcações no Báltico. Foi atingida por raios tantas vezes ao longo dos séculos que precisou ser reconstruída repetidas vezes, e hoje tem 124 metros. Durante a ocupação soviética, entre 1944 e 1991, a KGB chegou a usar o topo da torre como posto de vigilância e transmissão de rádio — um detalhe sombrio que a vista lá de cima não deixa transparecer.

Lá do alto, Tallinn parece uma maquete medieval perfeitamente preservada, cercada pelo azul do Mar Báltico. Em um dia de boa visibilidade, o horizonte se estende até o Golfo da Finlândia e, ao longe, é possível distinguir a linha da costa finlandesa. Foi um daqueles momentos que ajudam a dimensionar a proximidade entre os dois países. Nossa próxima parada seria justamente Helsinque, do outro lado do mar, tão perto que a travessia de ferry leva menos tempo do que muitos deslocamentos entre cidades dentro do próprio Brasil.

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Visitamos ainda a antiga prisão de Patarei, um contraponto necessário à beleza medieval do resto da cidade.

Erguida entre 1830 e 1837 como fortaleza marítima a mando do czar Nicolau I, virou prisão em 1920 e, ao longo de mais de oitenta anos, serviu a três regimes diferentes: a própria Estônia independente, a ocupação nazista entre 1941 e 1944, e a ocupação soviética, que a usou até os anos 2000. Fechada desde então, o complexo está em obras para abrigar o Museu Internacional das Vítimas do Comunismo — a reabertura, inicialmente prevista para 2026, já foi adiada para 2027. O portão que encontramos estava aberto, e entramos sem saber muito bem o que esperar.

Lá dentro, corredores vazios, celas abandonadas e um silêncio pesado contam mais do que qualquer legenda de museu conseguiria. Em um dos pátios, um busto de Lênin jaz caído no chão, deixado ali de propósito como símbolo do fim de um regime — um lembrete de que a Estônia carrega, debaixo da fachada de conto de fadas, décadas de ocupação que moldaram a identidade do país que ela é hoje.

Bem ao lado da prisão, quase na mesma calçada, fica o Lennusadam, o Museu Marítimo da Estônia, instalado em antigos hangares de hidroaviões, com aquário e até um submarino histórico para visitar por dentro. Para quem viaja com crianças, é a parada perfeita para equilibrar o peso da história com uma dose de diversão.

Onde comer em Tallin:

Nossa imersão na Tallinn medieval não ficou restrita às muralhas, torres e ruas de pedra. Ela continuou à mesa.

Uma das experiências mais marcantes da viagem foi jantar no lendário Olde Hansa, um restaurante que recria a atmosfera da cidade mercantil do século XV com impressionante atenção aos detalhes. À luz de velas, cercados por móveis de madeira, música de época e receitas inspiradas na tradição hanseática, tivemos a sensação de viajar alguns séculos no tempo.

O cardápio é onde a proposta realmente se prova: nada de reconstituição decorativa, é comida de caça de verdade, baseada em receitas medievais documentadas. Urso guisado em molho de frutas silvestres, lombo de alce ao molho de trufas, linguiças de javali, veado e o próprio urso. Os temperos seguem a mesma lógica histórica: canela, cardamomo, gengibre, pimenta-do-reino e açafrão, as especiarias que chegavam à Estônia justamente pelas rotas comerciais da Liga Hanseática. Para beber, a casa serve cerveja com mel em canecas de barro. Tudo isso servido, como manda a encenação, entre criados vestidos a rigor e tratando os clientes por “meu senhor”.

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Para uma refeição mais simples, mas igualmente autêntica, paramos no III Draakon, instalado em uma das dependências históricas da Praça da Prefeitura, dentro do prédio do Raekoda, do século XII.

Ali não existe cardápio de verdade — só placas na parede oferecendo três opções: sopa, salsicha ou pastel. A sopa de alce é a estrela da casa, servida em tigelas de barro, sem talheres, do jeito medieval mesmo. Tem ainda um barril de picles à disposição, de onde cada um pesca a própria porção com a mão, e as “senhoras da casa” seguem o roteiro à risca: atendimento propositalmente rabugento, num teatro que imita o trato áspero que qualquer viajante levaria naquela época. O ambiente rústico, os pratos servidos de forma despretensiosa e o clima descontraído fazem dele uma das experiências gastronômicas mais divertidas da Cidade Velha.

Roteiro 15 dias nos Bálticos: Riga, Letônia, Tallinn,  Estônia e Helsinki, Finlândia: de Riga a Helsinque.

Também fizemos questão de visitar o Maiasmokk, o café mais antigo de Tallinn, em funcionamento desde 1864.

Entre vitrines repletas de doces tradicionais e um elegante ambiente histórico, experimentamos o famoso marzipã estoniano. Além de ser uma sobremesa bonita, ele faz parte da identidade cultural do país e se tornou uma das lembranças gastronômicas mais tradicionais para quem visita a Estônia.

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Em um dia mais corrido, resolvemos comer na praça de alimentação do Viru Keskus, o maior shopping da Estônia, que reúne 15 restaurantes diferentes no seu Food Hall. Prático e sem glamour nenhum, mas foi uma parada eficiente entre um passeio e outro. E ainda de quebra abriga a livraria eleita a melhor do mundo em uma competição internacional, a Rahva Raamat.

Onde ficar em Tallin: Kreutzwald Hotel

Durante nossa estadia em Tallinn, ficamos hospedados no Kreutzwald Hotel, localizado fora da Cidade Velha. A escolha acabou sendo excelente para quem busca mais tranquilidade sem abrir mão da praticidade. Em poucos minutos de caminhada já estávamos entre as muralhas medievais, mas ao final do dia retornávamos para uma região mais calma da cidade. Foi uma boa combinação entre conforto, localização e custo-benefício, especialmente em um destino onde o centro histórico concentra grande parte das atrações.

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Antes de embarcar rumo à Finlândia, paramos em dois lugares que não são exatamente pontos turísticos de Tallinn, mas que valem mencionar em nosso roteiro.

O primeiro foi um brechó que me surpreendeu de verdade: o Humana Vintage, na Aia 7, bem na Cidade Velha. Lá dentro, encontrei peças por apenas 1 euro — um tipo de achado que não se espera numa capital europeia. A loja funciona desde o fim de 2023 nesse endereço e faz parte de uma rede de segunda mão que já opera na Estônia desde os anos 2000.

O segundo foi um monumento que nos deixou curiosos primeiro, e impactados depois: o Broken Line (Linha Quebrada), erguido perto da Torre Paks Margareeta, na borda norte da Cidade Velha. Ele homenageia as vítimas do naufrágio do ferry MS Estonia, ocorrido na madrugada de 28 de setembro de 1994, no Mar Báltico, entre Tallinn e Estocolmo, um dos piores desastres marítimos em tempos de paz na história europeia, com 852 mortos entre os 989 a bordo.

O monumento, em granito negro, é formado por duas curvas que se aproximam sem nunca se tocar: o vão entre elas representa exatamente as vidas interrompidas. Foi inaugurado em 1996, exatos dois anos após a tragédia, e carrega gravados os nomes de todas as vítimas.

A travessia: de balsa para a Finlândia

De Tallinn, a viagem ganhou um capítulo diferente: em vez de mais uma fronteira terrestre, uma travessia marítima. A balsa entre Tallinn e Helsinque atravessa o Golfo da Finlândia em cerca de duas horas, cobrindo pouco mais de 80 quilômetros de mar aberto, uma das rotas marítimas mais movimentadas da Europa, operada por empresas como Tallink e Viking Line, com dezenas de saídas por semana.

Embarcamos ainda com a luz da manhã, e vimos Tallinn encolher no horizonte, do convés, foi uma forma e tanto de fechar um capítulo da viagem e abrir outro, dois países, duas atmosferas completamente distintas: a Estônia medieval que deixávamos para trás, e a Finlândia nórdica e contemporânea que nos esperava do outro lado da água.

Roteiro 15 dias nos Bálticos: Riga, Letônia, Tallinn,  Estônia e Helsinki, Finlândia: de Riga a Helsinque.

O navio que nos levou até Helsinque foi o Megastar, da Tallink, um verdadeiro navio-shopping flutuante. São 212 metros de comprimento, capacidade para até 2.800 passageiros e 150 carros, e ele atravessa o Golfo da Finlândia, movido a gás natural liquefeito, o que o torna uma das embarcações mais modernas e menos poluentes do Báltico.

A travessia: de balsa para a Finlândia

Mas o que realmente impressiona é a Traveller Superstore, a loja duty-free de bordo: quase 2.800 metros quadrados de compras livres de impostos, distribuídos por dois andares, vendendo desde perfumes e chocolates até roupas de inverno de grifes escandinavas. Sim, é um shopping completo dentro de um navio, restaurantes, cafés, lounge de negócios, tudo isso enquanto o Báltico passa pela janela.

Confesso que o frio da Escandinávia já tinha convencido minha esposa de que ela precisava de reforços: Elizabeth aproveitou a parada no duty-free para comprar um casaco e extremamente quente, dessas peças que só fazem sentido comprar ali, cercada de vitrines nórdicas, enquanto o navio corta o mar rumo à Finlândia.

A travessia: de balsa para a Finlândia

Helsinque: a cidade que constrói para a luzroteiro de 10 dias pelos Países Bálticos e Helsinki

Chegamos a Helsinque esperando frio e disciplina nórdica, e encontrei as duas coisas — mas também uma cidade que parece ter sido projetada em função da luz, não do concreto.

Ficamos no Cheap Sleep, um hostel simples a poucos minutos a pé do centro, cama limpa, cozinha compartilhada funcional e, sem que estivesse em nenhuma descrição de reserva, uma vista de janela que se tornaria o cenário da melhor noite da viagem inteira. Reservamos quatro noites em Helsinque, tempo certeiro para conhecer a cidade com calma.

Nos corredores e na recepção, ouvíamos mais sotaques estrangeiros do que finlandês propriamente dito. O rapaz que nos atendeu no check-in não era de lá, como boa parte de quem trabalha no turismo na cidade, vinha de outro canto da Europa, atraído por uma combinação que ouviríamos repetir várias vezes ao longo da estadia: salário justo, transporte público que funciona, ar limpo, segurança que permite andar sozinho à noite sem o menor sobressalto.

Nos dias seguintes, entendi que Helsinque trata a luz como um material de construção, não como um detalhe técnico. Isso fica evidente já no Templo de Rocha (Temppeliaukio Kirkko), uma igreja luterana escavada literalmente dentro de um afloramento de granito, onde a luz natural entra por uma claraboia circular que rodeia toda a cúpula.

Enquanto o outono pinta a Finlândia de vermelho aqui fora, os finlandeses cavaram a própria igreja dentro da rocha — como se soubessem que a beleza durável não está na superfície, e sim no que resiste embaixo dela.
Uma igreja escavada em granito, iluminada por uma claraboia circular, a prova de que às vezes a luz mais bonita não é a que ilumina tudo, mas a que entra por uma única fresta bem pensada.

A poucos minutos dali, a Oodi, a biblioteca central que os próprios moradores tratam menos como prédio público e mais como sala de estar coletiva, com um terraço de onde se vê o Parlamento finlandês quase de cima para baixo.

Fomos também até a Praça do Senado, dominada pela catedral luterana branca e sua escadaria generosa de sessenta metros de largura, cartão-postal mais óbvio da cidade, e mesmo assim vale o clichê. Descobri depois uma curiosidade e tanto: o arquiteto que projetou toda a praça, o alemão Carl Ludvig Engel, tinha sido arquiteto da cidade de Tallinn antes de vir para a Finlândia, a mesma Tallinn que tínhamos acabado de deixar para trás. A catedral, concluída em 1852, chamava-se originalmente Igreja de São Nicolau, em homenagem ao czar Nicolau I; só depois da independência finlandesa, em 1917, ganhou o nome que tem hoje.

Contamos essa experiência nesse texto, não deixe de ler: Helsinque, Finlândia: quando o céu se tornou a atração principal

Reservamos uma manhã inteira para a balsa até Suomenlinna, a fortaleza marítima erguida a partir de 1748 sobre seis ilhas na entrada do porto de Helsinque, Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1991.

Poucos lugares no mundo mudaram de bandeira tantas vezes sem nunca serem destruídos: a fortaleza já defendeu a Suécia, depois o Império Russo, e hoje é finlandesa, e ainda funciona como bairro de verdade, com cerca de 850 moradores fixos. É por isso que famílias locais levam os filhos para fazer piquenique entre fortificações de mais de duzentos e setenta anos como quem visita um parque qualquer de bairro.

Vimos um submarino tão antigo que eu tinha certeza que a história por trás dele era das brabas, e não errei. O Vesikko, encalhado ali na costa de Suomenlinna como peça de museu, nasceu de uma manobra e tanto: construído em 1933 disfarçado de projeto civil finlandês, ele era na verdade o protótipo secreto dos submarinos alemães da Classe II, numa época em que a Alemanha estava proibida de ter submarinos pelo Tratado de Versalhes. Para escapar da proibição, os alemães usaram uma empresa de fachada holandesa e um estaleiro em Turku para testar o projeto sem levantar suspeitas.

A Finlândia comprou o Vesikko em 1936 e o colocou pra trabalhar de verdade logo depois: entre 1939 e 1944, o país travou duas guerras seguidas contra a União Soviética, a Guerra de Inverno, quando os soviéticos invadiram a Finlândia, e a Guerra de Continuação, quando os finlandeses tentaram retomar o território perdido, já aliados à Alemanha. Foi nesse período que o Vesikko teve seu feito mais notável, afundando o navio mercante soviético Vyborg, em 1941.

Depois da guerra, um tratado de paz proibiu a Finlândia de operar submarinos, e toda a frota foi vendida como sucata para a Bélgica, todos, menos o Vesikko, que escapou por pouco. Em 1973, ele virou uma peça de museu aberta ao público, incorporada ao Museu Militar da Finlândia. Hoje é o único submarino sobrevivente de toda a história naval finlandesa, e ainda recebe cerca de 50 mil visitantes por ano.

Depois, seguimos para o Design District, um bairro que reúne 25 ruas e quase 200 lojas de design desde 2005.

Entre grifes que qualquer amante do design reconhece de imediato, como Marimekko, Iittala e Artek, e pequenos ateliês independentes, o bairro torna tangível a fama da Finlândia como referência mundial em mobiliário, decoração e objetos do cotidiano.

Durante a viagem, descobri duas lojas que valem muito a pena na Finlândia. A primeira foi a Moomin Shop, perfeita para quem gosta dos famosos personagens criados pela escritora finlandesa Tove Jansson. Mesmo para quem não pretende comprar nada, é um lugar bonito e divertido para conhecer um dos maiores símbolos da cultura finlandesa.

A segunda dica veio da Elizabeth. Ela encontrou a Normal e logo percebeu que era uma ótima opção para comprar cosméticos, produtos de higiene, chocolates e até lembrancinhas por preços bem mais acessíveis do que em outras lojas. Se você gosta de garimpar boas compras durante a viagem, vale a pena incluir uma parada.

O mundo inteiro dentro de um mercado

A fama gastronômica da Finlândia gira em torno do peixe, e fizemos questão de provar o repertório local no Kauppahalli Saluhall, o histórico Mercado Hietalahti, erguido em 1903 originalmente como quartel de cavalaria russa e depois transformado em mercado coberto no bairro de Kamppi: salmão grelhado na chapa, sopa cremosa de salmão e os famosos korvapuusti, os rolinhos de canela finlandeses, mais discretos no açúcar e generosos no cardamomo.

Mas a surpresa real do mercado não foi a comida tipicamente finlandesa. Foi descobrir, ali dentro, um mosaico gastronômico do mundo inteiro. Na mesma fileira de barracas, comemos um prato indonésio preparado por quem domina essa culinária há gerações e, logo depois, uma porção de bacalhau à portuguesa que poderia ser servida em qualquer tasca de Lisboa.

Foi conversando com um casal de portugueses, donos de uma das bancas do mercado, que entendemos melhor essa Helsinque cosmopolita. Eles haviam morado alguns anos no Brasil antes de se mudar para a Finlândia e abrir o próprio negócio. Contaram, com um orgulho discreto, sobre a vida que construíram ali: um sistema de saúde eficiente, transporte público pontual, ruas seguras a qualquer hora e um equilíbrio entre trabalho e vida pessoal muito diferente do que conheciam antes. Essa não foi a única conversa desse tipo. Ao longo dos quatro dias, perdemos a conta de quantos sotaques estrangeiros ouvimos em filas, cafés e até no próprio hostel.

A noite em que o céu se abriu

Já estávamos no hostel, prestes a nos arrumar para dormir, quando a Elizabeth me lembrou: “você não ia abrir aquele aplicativo?” Abri o celular achando que ia checar só por checar — e encontrei a tela cheia de notificações que já tinham chegado sem eu perceber, avisando que a atividade estava alta demais para ignorar. Levantei da cama, de onde dava pra alcançar a janela logo acima, e não é que dava pra ver, sim, a olho nu, sem esforço nenhum: uma faixa esverdeada tímida cortando o céu escuro de Helsinque.

E então chegamos de volta ao início desta história. Enquanto eu me embrenhava pelas ruas do bairro tentando escapar da luz artificial dos postes em busca de um ângulo melhor, a Elizabeth ficou na janela do nosso quarto, com medo do frio noturno escandinavo, exausta por ter andado o dia inteiro, mas sem coragem de desgrudar os olhos por nem um segundo. A aurora não é um clarão único e parado, como costumam mostrar em fotos editadas com cores exageradas. Ela engrossa, afina, dança lateralmente como fumaça verde sendo empurrada timidamente por um vento que a gente não sente embaixo.

Retornei quase quarenta minutos depois, ofegante e sorridente, com o celular cheio de fotos tiradas de um pontinho mais alto que tinha encontrado a poucas quadras dali, onde a vista do horizonte ficava livre de prédios. Comparamos os ângulos: o dela, mais doméstico, emoldurado pelo caixilho da janela; o meu, mais aberto, com o verde se espalhando sobre os telhados de toda uma quadra de Helsinque.

O que eu aprenderia depois é que mesmo quem nasceu e cresceu na Finlândia às vezes nunca viu a aurora de perto na capital, porque ela depende de céu limpo, pouca poluição luminosa e um tantinho de sorte com a atividade solar daquela noite específica, e a maioria dos guias de viagem manda quem quer garantir o fenômeno para a Lapônia, centenas de quilômetros ao norte. Eu não tinha noção, antes de viajar, de que estaria competindo contra a sorte num lugar onde isso nem deveria ser tão provável. Só sei que, daquela vez, ela esteve do meu lado.

Conclusão: O que fica depois que o verde desaparece do céu

Voltamos para o Brasil com fotos de castelos bálticos cobertos por folhas em tons de amarelo e vermelho-vinho, fachadas Art Nouveau, ruas medievais muradas, uma igreja escavada na rocha e pratos de salmão. Mas voltamos, sobretudo, com histórias, daquelas que continuam sendo recontadas meses depois, sempre que alguém pergunta como foi a viagem.

O que realmente trouxemos na bagagem, porém, foi outra coisa: a lembrança exata da janela de um hostel simples, do frio de dois graus, do barulho da porta batendo quando saí correndo em busca de um ângulo melhor e da luz verde se movendo lentamente sobre os telhados de uma cidade que eu conhecia havia apenas uma semana.

Passei a vida inteira sonhando em ver a aurora boreal, sem imaginar que ela surgiria de forma tão inesperada, numa terça-feira de outubro, em Helsinque, depois de quinze dias cruzando três países de carro, balsa e estrada. Ao longo do caminho, conhecemos cidades medievais, castelos, florestas, mercados, fortalezas e paisagens que revelam uma Europa ainda pouco explorada por muitos brasileiros.

Talvez essa seja a maior lição deste roteiro pelos Países Bálticos: a Europa do Norte não precisa ser descoberta em viagens isoladas. Riga, Sigulda, Tallinn e Helsinque formam uma mesma narrativa, em que história, natureza e cultura se conectam de forma surpreendente. E não poderia haver desfecho mais bonito para essa travessia do que aquele que nos esperava no último destino: um céu inteiro pintado de verde.

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Como chegar e se locomover entre os países – roteiro de 10 dias pelos Países Bálticos e Helsinki

Não há voos diretos do Brasil para os países bálticos. Voamos de Paris até Riga e alugamos um carro direto no aeroporto, uma boa opção para quem já está na Europa e quer liberdade total de roteiro. De Riga, seguimos de carro até Sigulda e depois até Tallinn, na Estônia. De Tallinn, a travessia para Helsinque, na Finlândia, é feita de balsa, com duração de cerca de duas horas pelo Golfo da Finlândia, várias empresas operam o trajeto com múltiplas saídas diárias.

Onde reservar (minha prática pessoal)

Sempre faço a reserva antes da viagem, por preço e por segurança. A ferramenta que usei e indico, pela transparência e variedade, é a DiscoverCars.

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Quando ir – roteiro Europa de 10 dias pelos Países Bálticos e Helsinki

Os Países Bálticos e Helsinque podem ser visitados durante todo o ano, mas a experiência muda bastante conforme a estação.

O verão, entre junho e agosto, é a época mais popular. Os dias são muito longos, as temperaturas costumam variar entre 18 °C e 25 °C, as cidades ficam cheias de vida e a programação cultural é intensa. Em contrapartida, é também o período mais movimentado e com preços mais elevados.

Nós fizemos essa viagem na segunda quinzena de outubro e consideramos que foi uma excelente escolha. O outono já estava em sua fase mais intensa, colorindo florestas, parques e cidades com tons de amarelo, laranja e vermelho, especialmente em Sigulda, conhecida como a “Suíça da Letônia”. Além disso, encontramos menos turistas, temperaturas frias, mas ainda confortáveis para caminhar, e noites longas, que aumentaram nossas chances de observar a aurora boreal em Helsinque, exatamente o que aconteceu durante a viagem.

Se o objetivo é aproveitar dias ensolarados e muitas horas de luz, o verão é a melhor opção. Já para quem busca paisagens de outono, cidades mais tranquilas e a possibilidade de ver a aurora boreal, a segunda quinzena de outubro é uma época difícil de superar.

Quanto tempo reservar – roteiro Europa de 10 dias pelos Países Bálticos e Helsinki

Reservamos três noites em cada cidade báltica (Riga, com bate-volta a Sigulda, e Tallinn) e quatro noites em Helsinque, dez dias de roteiro completo, com tempo de sobra para caminhar sem pressa e ainda ter folga para imprevistos (e auroras). Aí 5 dias a mais ficamos na Suíça. Próximo post

Onde se hospedar – roteiro de 10 dias pelos Países Bálticos e Helsinki

  1. Riga:  Radisson Blu Daugava Hotel & Spa, bem localizado para cruzar a pé até a Cidade Velha.
  2. Tallinn: Kreutzwald Hotel, próximo ao centro histórico.
  3. Helsinque: Cheap Sleep, , hostel simples e econômico a poucos minutos a pé do centro — ótima opção para quem busca economia sem abrir mão de localização.
  4. Em muitos roteiros pelos Países Bálticos, a Lituânia também faz parte do itinerário. No nosso caso, porém, os 10 dias disponíveis nos levaram a priorizar a Letônia, a Estônia e Helsinque, deixando a Lituânia como um excelente motivo para voltar à região.

Como ver a aurora boreal em Helsinque

Diferente da Lapônia finlandesa, onde a aurora é observada com frequência bem maior, em Helsinque as chances são reais, mas mais baixas, dependem de céu limpo, atividade geomagnética forte e, idealmente, afastamento da poluição luminosa do centro. Recomendamos baixar um aplicativo de alerta, como o My Aurora Forecast & Alerts, antes mesmo de embarcar, e manter o celular com notificações ativas durante as noites de céu limpo. A nossa aconteceu por volta das 22h, em outubro, com o termômetro marcando entre dois e quatro graus positivos — e nenhum aviso prévio além do alerta do aplicativo.

O que não pular roteiro Europa de 10 dias pelos Países Bálticos e Helsinki

  1. Riga: Cidade Velha, Castelo de Riga, Mercado Central (Hangares de Zepelim), Igreja de São Pedro.
  2. Sigulda: Parque Nacional do Gauja, mirantes do vale.
  3. Tallinn: Cidade Velha murada, mirante de Toompea, café Maiasmokk, jantar medieval no Olde Hansa.
  4. Helsinque: Templo de Rocha, Biblioteca Oodi, Praça do Senado, Fortaleza de Suomenlinna, Design District, Mercado da Praça (Kauppatori).

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