A Rota do Brasil em Portugal: Um Mergulho nas Raízes de uma Nação Além-Mar
Um roteiro de viagem por Portugal costuma levar o brasileiro a um reencontro com a história que aprendeu nos livros. Para mim, porém, essa viagem significou fazer o caminho inverso ao daqueles que um dia partiram.
Há um fio invisível ligando as decisões políticas de Lisboa, os bancos universitários de Coimbra e os livros paroquiais do Minho à formação do país onde nasci e à memória da minha própria família.
Para quem busca verdadeiramente compreender a essência do Brasil contemporâneo, atravessar o oceano e percorrer as terras de Portugal não é apenas uma viagem convencional; é um retorno às origens, um exercício necessário de autoconhecimento que se revela em cada pedra de calçada portuguesa, em cada azulejo azul e branco que adorna as fachadas e no som melancólico de um fado que ecoa pelas ruelas milenares.

O Chamado do Passado e o Reencontro: Por quê fazer um Roteiro histórico – a Rota do Brasil em Portugal?
Ao longo deste percurso, o mapa deixa de ser apenas uma divisão geográfica e passa a ser um convite à reflexão: compreender como estruturas jurídicas, traços urbanos e costumes brasileiros encontram suas matrizes preservadas no território português. A chamada “Rota do Brasil em Portugal” propõe mais do que um roteiro e de deslocamentos entre cidades; trata-se de um percurso que revela como o Brasil foi sendo formado a partir de uma longa sucessão de eventos históricos, iniciados ainda no contexto da Expansão Marítima Portuguesa.
Essa proposta se dirige ao viajante interessado em ir além da superfície, alguém que busca compreender a história a partir da experiência concreta dos lugares.
Em cidades como Lisboa, Coimbra ou Santarém, o passado não se apresenta como algo distante, mas como uma presença contínua, perceptível na paisagem, na arquitetura e nas práticas cotidianas.
No meu caso, essa travessia também carrega um sentido íntimo. Tenho uma descendência portuguesa evidente pelo sobrenome Fontainha. Ainda assim, meus antepassados estão há tantas gerações no Brasil que não possuo direito à cidadania. Essa constatação, que poderia sugerir um distanciamento, foi completamente ressignificada quando visitei Porto.
A experiência foi imediata e, de certo modo, inexplicável. Não se tratava de um reconhecimento racional, mas de uma sensação profunda de pertencimento. Ao caminhar pela cidade, tive a impressão de reencontrar algo que sempre esteve comigo, ainda que sem forma definida. É difícil traduzir em palavras, mas havia ali uma familiaridade silenciosa, como se a memória ultrapassasse registros formais e se manifestasse de maneira quase intuitiva.


Aviso de transparência: Alguns links desta página fazem parte de programas de afiliados. Isso significa que podemos receber uma pequena comissão por reservas ou compras realizadas por meio deles, sem qualquer custo adicional para você. Essa parceria ajuda a manter nosso conteúdo independente, gratuito e em constante produção.
1- Lisboa: Onde o Horizonte se Tornou Destino
Em Lisboa, a relação entre Brasil e Portugal deixa de ser uma abstração e se revela de forma concreta. Foi a partir do estuário do rio Tejo que partiram, entre os séculos XV e XVI, diversas expedições no contexto da Expansão Marítima Portuguesa, incluindo a armada de Pedro Álvares Cabral em 1500. Esses movimentos ampliaram o conhecimento geográfico europeu e estabeleceram as bases da formação histórica, econômica e cultural do Brasil.
Belém: ponto de partida de uma expansão marítima
O bairro de Belém ocupa posição central nesse processo. Situado às margens do Tejo, foi uma das principais áreas de apoio às expedições ultramarinas portuguesas. Embora não seja possível determinar com exatidão o ponto de partida de cada frota, sabe-se que essa região concentrava estruturas portuárias e logísticas fundamentais.
O Padrão dos Descobrimentos, inaugurado no século XX, atua como um marco simbólico dessa memória. As figuras representadas remetem ao papel português na expansão marítima e à integração de novos territórios ao mundo europeu.

Mosteiro dos Jerónimos: poder, fé e expansão
O Mosteiro dos Jerónimos é um dos mais relevantes testemunhos materiais da Expansão Marítima Portuguesa. Sua construção, iniciada em 1501, foi financiada principalmente pelas rendas do comércio oriental, sobretudo das especiarias.
Além de ser um edifício religioso, o mosteiro expressa a articulação entre fé e expansão ultramarina. Foi nesse espaço que se realizaram cerimônias religiosas associadas às partidas de expedições marítimas, incluindo aquelas que resultariam na chegada portuguesa ao território que viria a ser o Brasil.
A ligação com o Brasil torna-se ainda mais evidente ao longo dos séculos seguintes. A partir do final do século XVII, com a descoberta do ouro em regiões como Minas Gerais, a economia portuguesa passou a depender significativamente das riquezas extraídas da colônia. Esses recursos ajudaram a sustentar o império e reforçam o papel simbólico do mosteiro como expressão de um período em que fé, poder e expansão estavam profundamente interligados.
Como visitar o Mosteiro:
Para visitar o Mosteiro dos Jerónimos, vale a pena ir com tempo e atenção aos detalhes, porque é justamente neles que está o encanto. Logo na entrada, a igreja impressiona pela grandiosidade e pela leveza das colunas, que parecem sustentar o teto como se fossem rendas de pedra. É ali que estão os túmulos de Vasco da Gama e Luís de Camões, dois nomes centrais da história e da cultura portuguesa.
No claustro, que exige ingresso, a experiência se torna ainda mais especial. Cada arco e cada detalhe esculpido traz símbolos ligados ao mar, às navegações e ao poder do período manuelino.
Caminhar por esse espaço é perceber como arte, religião e política estavam profundamente conectadas naquele momento histórico.
Tour por Belém e mosteiro dos Jerónimos

Torre de Belém: defesa e controle do território
A Torre de Belém, construída entre 1514 e 1520, integrava o sistema defensivo da entrada do rio Tejo. Sua função principal era proteger Lisboa e controlar o tráfego marítimo, especialmente em um período de intensa circulação entre a Europa e os territórios ultramarinos, incluindo o Brasil.
Embora tenha sido erguida após a viagem de Pedro Álvares Cabral, a torre simboliza a consolidação do poder naval português no século XVI.

Alfama e a Igreja de Santo António: permanências culturais
No bairro de Alfama encontra-se a Igreja de Santo António de Lisboa, associada ao local de nascimento de Santo António de Lisboa.
A ampla devoção a Santo António no Brasil demonstra como práticas religiosas portuguesas foram incorporadas e reinterpretadas ao longo do tempo, consolidando vínculos culturais duradouros entre os dois países.
Praça do Comércio: centro político e administrativo
A Praça do Comércio, tradicionalmente conhecida como Terreiro do Paço, foi durante séculos um dos principais centros administrativos do império português. Ali se localizavam estruturas de governo responsáveis por decisões que impactavam os territórios ultramarinos, incluindo o Brasil.
Seu cais recebia mercadorias provenientes da colônia, como açúcar e, posteriormente, ouro, inserindo Lisboa em uma rede econômica global. Após o terremoto de 1755, a praça foi reconstruída, mantendo sua centralidade simbólica e política.
Onde ficar em: Lisboa: Olissippo Marquês de Sá (4★

Museu Nacional do Azulejo: continuidade estética
O Museu Nacional do Azulejo reúne um dos mais importantes acervos da arte azulejar portuguesa. Essa tradição foi levada ao Brasil durante o período colonial, sendo incorporada à arquitetura local.
A presença do azulejo em cidades brasileiras demonstra a permanência de técnicas e referências estéticas que atravessaram o Atlântico, adaptando-se a novos contextos sem perder sua identidade original.
Casa da Índia: o centro invisível do império
Pouco visível aos olhos do turista, mas absolutamente central na história, a Casa da Índia foi uma das instituições mais importantes do império português. Localizada na região da atual Praça do Comércio, era responsável pela administração do comércio ultramarino, incluindo rotas, mercadorias e receitas provenientes dos territórios conquistados.
Embora inicialmente voltada ao comércio com o Oriente, essa estrutura administrativa também passou a integrar, ao longo do tempo, a gestão econômica do Brasil. Era por meio dela que se organizava parte do fluxo de riquezas que atravessava o Atlântico, conectando Lisboa às capitanias americanas.
Hoje, não há um edifício preservado para visitação, mas compreender sua existência é fundamental para entender que o império português não se sustentava apenas nas viagens marítimas, mas também em uma complexa rede burocrática e comercial.
Igreja de São Roque: riqueza do império e presença brasileira
A Igreja de São Roque é um dos exemplos mais impressionantes da relação entre fé, poder e riqueza no império português. Sua aparência externa discreta contrasta com um interior ricamente decorado, financiado ao longo do tempo por recursos provenientes dos territórios ultramarinos.
Um dos seus espaços mais notáveis, a Capela de São João Batista, foi construída em Roma e trazida para Lisboa no século XVIII. Esse nível de investimento só foi possível em um contexto de grande afluxo de riquezas, incluindo aquelas oriundas do Brasil, especialmente durante o ciclo do ouro.
A visita revela, de forma concreta, como os recursos extraídos da colônia também se materializaram em obras religiosas e artísticas na metrópole.
Arquivo Nacional da Torre do Tombo: a memória documental do Brasil
O Arquivo Nacional da Torre do Tombo guarda alguns dos documentos mais importantes da história portuguesa e da formação do Brasil. É ali que se encontram registros administrativos, cartas régias, mapas e documentos que estruturaram a relação entre Portugal e suas possessões ultramarinas. Entre eles, repousa o manuscrito original da Carta de Pero Vaz de Caminha, um dos primeiros testemunhos documentais sobre a chegada portuguesa ao território que viria a ser o Brasil. Embora não seja um ponto turístico convencional, o arquivo representa o lugar onde a história do Brasil foi formalmente registrada e organizada.
Lisboa é um ótimo ponto de partida para qualquer roteiro por Portugal, além disso, a cidade possui pontos turísticos onde se pode compreender, com clareza, os processos que deram origem ao Brasil. Ao percorrê-la com atenção, revela-se uma rede de continuidades que ultrapassa séculos e mantém viva uma relação construída entre memória, cultura e experiência.
Leia mais: Lisboa com crianças: o que fazer e onde ficar – roteiro de 3 dias
Queluz e Sintra: O Refúgio da Realeza e o Nascimento de um Império
Nos arredores de Lisboa, Queluz e Sintra revelam uma dimensão mais íntima do poder régio português. Longe do centro político da capital, esses espaços funcionaram como refúgio da monarquia, mas também como cenários de decisões e acontecimentos que impactariam diretamente o destino do Brasil. Entre palácios e paisagens, é possível compreender como a vida da corte se articulava entre o cotidiano e a política, conectando a Europa e a América.
Palácio Nacional de Queluz: O Berço de Dom Pedro I
A cerca de 15 quilômetros de Lisboa, o Palácio Nacional de Queluz destaca-se como um dos espaços mais relevantes para a compreensão da história luso-brasileira. Construído no século XVIII, é um dos principais exemplos da arquitetura rococó em Portugal e foi utilizado como residência pela família real.
Mais do que sua estética refinada, o palácio possui um significado histórico direto para o Brasil. Foi ali que nasceu, em 12 de outubro de 1798, Dom Pedro I, figura central no processo de independência brasileira. O quarto associado ao seu nascimento permanece como um dos espaços mais simbólicos do edifício.

Ao percorrer seus salões, no entanto, uma impressão pode surgir: muitos ambientes parecem mais vazios do que se esperaria de uma residência real. Foi exatamente essa sensação que tive ao visitá-lo. A princípio, causa estranhamento.
Mas essa percepção ganha outro sentido quando se compreende que parte do mobiliário e dos objetos da corte atravessou o Atlântico no início do século XIX. Com a transferência da família real para o Rio de Janeiro, diversos bens acompanharam esse deslocamento e permaneceram no Brasil. Hoje, parte desse acervo pode ser encontrada em instituições como o Museu Imperial. Esse “vazio”, portanto, não é ausência, mas vestígio concreto de uma história compartilhada.

O palácio também esteve ligado a um dos momentos mais decisivos da história portuguesa e brasileira. Em 1807, diante da iminente invasão das tropas napoleônicas, a família real, então instalada em Queluz, deslocou-se para Lisboa, de onde partiu rumo ao Brasil. Esse movimento resultou na transferência da corte para o Rio de Janeiro, que passou a sediar o centro do poder do Império Português.
A trajetória de Dom Pedro também se encerra nesse mesmo espaço. Foi no Palácio de Queluz que ele faleceu em 1834, após abdicar do trono brasileiro e envolver-se nas disputas políticas em Portugal. Sua vida, marcada por acontecimentos em ambos os lados do Atlântico, reforça o papel do palácio como um ponto de conexão direta entre as histórias dos dois países.
Sintra: tradição e continuidade histórica – Roteiro histórico por Portugal
Próxima a Palácio Nacional de Queluz, a vila de Sintra ocupa um lugar singular na história da monarquia portuguesa. Ao longo dos séculos, foi residência e local de permanência de diversos monarcas, muitos dos quais estiveram diretamente ligados à administração do Brasil durante o período colonial.
O Palácio Nacional de Sintra, reconhecido por suas características chaminés cônicas, é um dos mais antigos palácios reais de Portugal. Sua ocupação contínua por diferentes gerações da realeza o torna um testemunho da estrutura política que, por séculos, governou territórios ultramarinos, incluindo o Brasil.
Um exemplo concreto dessa ligação está no fato de que reis como Dom João V e Dom José I, que utilizaram Sintra como residência, governaram Portugal durante períodos em que o Brasil era a principal fonte de riqueza do império, especialmente com o ouro vindo de Minas Gerais. Assim, embora Sintra não tenha sido palco direto de eventos ligados ao Brasil, ela foi um dos espaços onde viviam e decidiam os monarcas responsáveis pela condução política e econômica da colônia.
Contrate aqui Visita guiada por Sintra e Quinta da Regaleira
Coimbra: A Fábrica de Ideias e a Formação da Elite Brasileira – Roteiro histórico por Portugal
Nenhuma rota histórica sobre a presença do Brasil em Portugal estaria completa sem uma parada na histórica Coimbra. Por mais de três séculos, a Universidade de Coimbra, fundada originalmente em 1290, constituiu o principal polo de formação acadêmica da elite intelectual, política e jurídica brasileira. Até a fundação das primeiras faculdades de Direito em Olinda e São Paulo, em 1827, era ali que se formavam os magistrados, intelectuais e administradores destinados a conduzir as instituições coloniais e o futuro Estado.
Ao atravessar a Porta Férrea e entrar no Pátio das Escolas, estamos pisando no mesmo chão que foi percorrido por jovens que mudariam o destino do Brasil. Foi aqui que José Bonifácio de Andrada e Silva, o “Patriarca da Independência”, estudou Direito e Ciências Naturais, absorvendo as ideias iluministas que mais tarde aplicaria na construção do novo país. Por esses bancos passaram também grandes nomes da nossa literatura e da Inconfidência Mineira, como Tomás António Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa.
A universidade era o caldeirão onde a insatisfação com o pacto colonial começava a se transformar em projetos de nação.
Eu já morei em Ouro Preto, e ao caminhar pelas ruas de Coimbra a lembrança da cidade mineira foi imediata. Não é uma semelhança de estilo: são séculos e circunstâncias diferentes, uma cidade medieval e outra erguida no auge do ciclo do ouro. Mas há algo no corpo que reconhece o paralelepípedo irregular sob os pés, as ladeiras que obrigam a desacelerar, a cidade que se revela aos poucos, subindo.
Há também uma semelhança na maneira como a vida universitária se mistura à própria cidade. Em Coimbra, a Universidade está presente nas ruas, nos edifícios, no movimento dos estudantes e na história que se acumulou ao seu redor. Ouro Preto, embora em outro contexto e sem ter a mesma tradição universitária de Coimbra, também carrega essa convivência entre patrimônio, estudantes e vida intelectual. Em ambas, a cidade não parece apenas abrigar uma universidade: a presença universitária faz parte da experiência de caminhar por ela.
É o mesmo convite ao caminhar devagar que aprendi a fazer em Minas Gerais. Agora, em Coimbra, esse caminhar me levava por uma cidade onde a universidade faz parte da própria paisagem e da vida cotidiana, assim como a presença de estudantes e da vida intelectual também marca Ouro Preto.
O ponto alto da visita é, sem dúvida, a Biblioteca Joanina.
Construída no século XVIII, durante o reinado de Dom João V, ela é considerada uma das bibliotecas mais belas e ricas do mundo. O que muitos brasileiros não percebem à primeira vista é que parte dessa exuberância está ligada à riqueza que atravessou o Atlântico durante o período colonial, especialmente àquela proveniente das minas de Minas Gerais.
Visitar Coimbra é, para um brasileiro, compreender onde nasceram parte das bases jurídicas, administrativas e intelectuais que influenciaram diretamente a construção do Brasil.

A tradição acadêmica de Coimbra, com suas capas negras e rituais centenários, também deixou marcas profundas na cultura brasileira.
É uma cidade profundamente ligada ao conhecimento e que, até hoje, atrai um número significativo de estudantes brasileiros, refletindo a continuidade dos laços intelectuais entre os dois países.
Belmonte: Origem de Pedro Álvares Cabral e memória da expansão – Roteiro histórico por Portugal
Situada no interior de Portugal, na região central do país, Belmonte encontra-se nas encostas orientais da Serra da Estrela, a cerca de 300 km de Lisboa e 40 km de Covilhã. Esta vila histórica é reconhecida como o local de nascimento de Pedro Álvares Cabral, por volta de 1467.
O Castelo de Belmonte, antiga residência da família Cabral, permanece como um dos principais marcos desse vínculo, dominando a paisagem local.
Além disso, o Museu dos Descobrimentos apresenta de forma interativa o contexto das navegações portuguesas e a viagem de 1500, incluindo referências ao encontro entre europeus e povos indígenas, promovendo uma leitura ampla e historicamente fundamentada do processo.
A visita à Igreja de São Tiago e ao Panteão dos Cabrais permite contato direto com a memória familiar do navegador, onde membros da linhagem Cabral estão sepultados. A vila mantém ainda vestígios de sua histórica comunidade judaica, que praticou sua fé de forma discreta durante séculos, com muitos membros migrando posteriormente para o Brasil.

Santarém: o desfecho histórico de Pedro Álvares Cabral
Santarém situa-se na região central de Portugal, aproximadamente 80 km a norte de Lisboa, posicionada estrategicamente sobre a margem esquerda do rio Tejo, o que historicamente conferiu à cidade importância militar e comercial. Seu território combina planícies férteis com vistas panorâmicas sobre o Tejo, tornando-a um ponto de referência tanto histórica quanto geograficamente na expansão marítima portuguesa.
Foi em Santarém que Pedro Álvares Cabral faleceu, por volta de 1520, já afastado dos centros de poder do reino. O túmulo de Cabral encontra-se na Igreja da Graça, identificado por uma lápide simples que contrasta com a magnitude de sua trajetória.
Porto: A Alma Dividida pelo Mar – Roteiro histórico por Portugal
Ao norte, banhada pelo rio Douro, a cidade do Porto, a “Cidade Invicta”, desempenhou papel decisivo nas rotas comerciais que ligaram Portugal ao Brasil durante o período colonial, facilitando o transporte de riquezas, manufaturas e pessoas entre os dois lados do Atlântico.
A conexão com o Brasil é visceral e está guardada, literalmente, na sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Lapa. Lá, por desejo expresso em seu testamento, encontra-se o coração de Dom Pedro I do Brasil (que para os portugueses é Dom Pedro IV), abrigado em um mausoléu com relicário de prata. O imperador nutria um amor profundo pelo Porto, cidade que o apoiou com heroísmo durante as Guerras Liberais e que resistiu ao cerco das tropas absolutistas (1832-1834).
Visitar a Igreja da Lapa e contemplar o mausoléu é uma experiência que emociona. Este relicário é o símbolo máximo de um homem que viveu dividido entre dois continentes e que, na morte, quis que seu corpo repousasse no Brasil, na Cripta Imperial do Monumento à Independência, em São Paulo, e seu coração permanecesse acolhido no Porto. Uma relíquia que materializa a cisão interna de um homem cuja identidade viveu permanentemente repartida pelas águas do Atlântico.

Guimarães e Braga: As Raízes da Nacionalidade e a Fé que Cruzou o Mar – Roteiro histórico por Portugal
Guimarães: O berço de um povo
A cidade de Guimarães situa-se no norte de Portugal, na região do Minho, aproximadamente 55 km a norte do Porto. Localizada em um vale cercado por colinas, a cidade é considerada o “Berço da Nacionalidade” portuguesa. Foi ali que, em 1128, D. Afonso Henriques travou a Batalha de São Mamede, um dos acontecimentos associados ao processo de formação e consolidação do reino português.
Caminhar pelo centro histórico de Guimarães, classificado como Patrimônio Mundial pela UNESCO, é perceber como a vida urbana portuguesa foi se formando ao longo dos séculos. O Castelo de Guimarães, com suas torres robustas, e o Paço dos Duques de Bragança testemunham diferentes momentos da história política e social do país. Para o brasileiro, essa paisagem também ajuda a reconhecer elementos que atravessaram o Atlântico.
Ruas estreitas, construções alinhadas ao traçado das vias, casas voltadas diretamente para a rua e a presença de igrejas integradas ao espaço urbano são características que podem ser encontradas, com adaptações locais, em antigos núcleos urbanos brasileiros.
Essa herança aparece, por exemplo, em cidades históricas como Ouro Preto, Mariana e São João del-Rei, onde igrejas, sobrados, ruas estreitas e praças organizam a paisagem urbana e revelam a permanência de referências portuguesas, reinterpretadas pelas condições e pela história do Brasil.

Braga: A Roma Portuguesa e a Herança Religiosa Brasileira
Braga é uma das cidades cristãs mais antigas do mundo. Sua Sé Catedral lembra a importância da fé católica na história de Portugal e também da religião que atravessou o Atlântico e esteve presente na formação do Brasil colonial.
O Santuário do Bom Jesus do Monte chama atenção por sua grande escadaria, cercada por capelas e fontes. A mesma ideia de criar um caminho de fé marcado por etapas e imagens religiosas pode ser percebida no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, Minas Gerais. Ali, essa tradição ganhou características próprias na obra de Aleijadinho, especialmente nas esculturas dos Passos da Paixão.
Hotel em Braga:
- Vila Galé Collection Braga – Situado próximo ao centro histórico, combina luxo contemporâneo com conforto e serviço de alto padrão, permitindo fácil acesso à Sé Catedral, ao Santuário do Bom Jesus e a outros pontos históricos.

Viana do Castelo e o Minho: O Porto de Partida da Alma Brasileira – Roteiro histórico por Portugal
Viana do Castelo: O Mar como Destino e Saudade
Subindo ainda mais ao norte, chegamos a Viana do Castelo, cidade diante do Oceano Atlântico e com uma história profundamente marcada pelo mar e pela emigração rumo ao Brasil. Durante séculos, o porto de Viana esteve ligado ao comércio marítimo e às grandes travessias, tornando-se também ponto de partida para portugueses que deixavam o Minho em busca de novas oportunidades.
A Praça da República, com seu chafariz monumental e o edifício da Misericórdia, preserva parte da memória da prosperidade que o comércio marítimo trouxe à região.
Em Viana do Castelo esse elo ganhou rosto. Na freguesia de Areosa, encontrei o registro de batismo do meu antepassado Martinho Afonso Fontainha, nascido em 1805, filho de Manuel Afonso Fontainha e Gertrudes Maria.
Entre os documentos localizados durante a apuração, surgiu um dado revelador: Martinho era membro de uma tripulação marítima.
O registro ajuda a compreender sua relação com o mar e a possibilidade de suas viagens entre as duas margens do Atlântico. O cruzamento com os dados da paróquia de Mar de Espanha, na Zona da Mata mineira, permite acompanhar a presença da família no Brasil, onde seu filho, José Afonso Fontainha, aparece documentado a partir da década de 1840. Anos mais tarde, Martinho reaparece nos registros paroquiais de Areosa, onde veio a falecer em 1871.
O mar, portanto, não era para ele apenas uma passagem. Fazia parte de seu próprio trabalho e de sua vida. Saber que um antepassado viveu embarcado entre essas duas terras antes de deixar descendência no interior de Minas Gerais dá à viagem um sentido real de reencontro.
Ao caminhar por Viana, com o vento salgado vindo da foz do rio Lima, a paisagem ganha outra dimensão. Já não estou apenas diante de uma cidade portuguesa bonita e antiga, mas de um lugar que fez parte da história da minha própria família.

Leia mais: Compras em Portugal, veja as melhores opções
A Gastronomia do Minho: O Sabor da Nossa Infância – Roteiro histórico por Portugal
Não se pode falar do Minho sem mencionar a sua gastronomia, que é, talvez, o laço mais forte e imediato que o brasileiro sente ao visitar Portugal. O Caldo Verde, o Bacalhau à Minhota e os doces à base de ovos são pratos que fazem parte do imaginário afetivo de milhões de brasileiros. Sentar-se à mesa em uma taberna em Viana é como retornar à cozinha de uma avó.
O sabor do azeite, o aroma do alho e a textura do pão de milho (a broa) são elementos que nos conectam de forma instintiva às nossas raízes. São sabores que atravessaram o oceano, foram incorporados à culinária brasileira e, ao longo do tempo, ganharam novos ingredientes, técnicas e significados.
Leia também: Lisboa à mesa: Uma viagem gastronômica pela história
Évora e o Alentejo: Patrimônio, Educação e Paisagem que Cruzou o Atlântico – Roteiro histórico por Portugal
Évora: O Patrimônio Mundial e a Influência Jesuíta no Brasil
Nosso percurso nos leva ao sul de Portugal, na região do Alentejo, onde se ergue Évora, classificada como Patrimônio Mundial pela UNESCO e repleta de vestígios romanos, mouriscos e medievais.
A conexão com o Brasil se dá principalmente por meio da Universidade de Évora, fundada em 1559 pelo Cardeal Dom Henrique e confiada à Companhia de Jesus. A instituição integrou a rede de formação jesuítica que se articulava entre Portugal e seus territórios ultramarinos, contribuindo para a formação religiosa e intelectual de membros da ordem ligados à atuação missionária no Brasil.
Ao percorrer os claustros renascentistas do Colégio do Espírito Santo, decorados com azulejos que representam artes e ciências, é possível perceber a tradição educacional da Companhia de Jesus. Esse modelo de ensino esteve presente na formação dos jesuítas que atuaram no Brasil, influenciando a educação e a catequese durante o período colonial.
Na mesma cidade, a Igreja de São Francisco, com a famosa Capela dos Ossos, ilustra o barroco alentejano mais austero. Suas paredes revestidas de ossadas humanas e a emblemática inscrição de pórtico, “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”, traduzem a dramaticidade e o simbolismo penitencial que ecoaram na arte sacra e nas irmandades religiosas coloniais brasileiras, principalmente em Minas Gerais e no Nordeste.
Hotel em Évora:
- Convento do Espinheiro, Historic Hotel & Spa – Um dos hotéis mais icônicos do Alentejo, instalado em um convento do século XV, combina história, luxo absoluto e gastronomia premiada, proporcionando uma experiência única no coração histórico da cidade.

Alentejo: Paisagem, Agricultura e Conexões com o Brasil – Roteiro histórico por Portugal
O Alentejo não se resume a Évora. A região é marcada pelas vastas planícies douradas, oliveiras centenárias e sobreiros que fornecem cortiça para o mundo inteiro. Para o brasileiro que conhece o interior do Nordeste ou Centro-Oeste, a paisagem lembra o cerrado e o sertão, com clima seco, sol intenso e vegetação resistente.
A gastronomia alentejana valoriza ingredientes que também se tornaram muito presentes na mesa brasileira, como o azeite, o pão, o alho, as ervas aromáticas e a carne de porco. A cozinha da região nasceu ligada à vida rural e ao aproveitamento dos produtos disponíveis, característica que permite ao viajante brasileiro reconhecer, em Portugal, algumas tradições que também fazem parte da formação da nossa culinária.
Ao visitar uma herdade alentejana, o viajante sente a paz e a força da terra, aprendendo valores como paciência, respeito ao ciclo da natureza e generosidade do campo. Essa relação profunda com o solo e a agricultura ecoa no Brasil, consolidando um vínculo cultural e emocional que atravessou o Atlântico.
Leia também: Ruínas Romanas do Alentejo: História Viva no Coração de Portugal
Conclusão: Descobrindo Portugal através de um roteiro com laços históricos com o Brasil – O Sentido do Caminho Inverso
Percorrer esta rota demonstra que Portugal e Brasil não compartilham apenas uma língua. Compartilham uma história marcada pela circulação de pessoas, conhecimentos, crenças, instituições e práticas culturais, mas também por relações de poder, exploração e contradições.
Aqueles homens e mulheres que um dia deixaram portos como Lisboa ou os campos de Viana do Castelo partiram levando consigo a força de seu trabalho e seus sobrenomes.
Gerações depois, realizei a travessia no sentido oposto para encontrar, nos arquivos paroquiais, nos monumentos e nas paisagens, os vestígios de uma história que também chegou até mim.
Construir este caminho não foi fruto de uma única visita, mas de viagens sucessivas a Portugal em busca de respostas, documentos e vivências. Foi a forma mais lúcida que encontrei para decifrar as raízes do meu próprio país e, ao mesmo tempo, compreender um pouco mais de mim mesma.

Fontes e Referências Consultadas
Acervos Documentais e Paroquiais: Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, incluindo o manuscrito original da Carta a el-Rei Dom Manuel sobre o achamento do Brasil, de Pero Vaz de Caminha, de 1500; Arquivo Distrital de Viana do Castelo, com consulta aos livros paroquiais de batismo e óbito da Freguesia de Santa Maria de Areosa, do século XIX; registros paroquiais e civis históricos da Comarca de Mar de Espanha, em Minas Gerais; Cúria (arquidiocese) de Juiz de Fora.
Instituições e Acervos Históricos: Reitoria e Arquivo da Universidade de Coimbra; Gabinete Histórico da Biblioteca Joanina; Centro de Memória da Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, no Porto, com documentação sobre o legado testamentário de Dom Pedro IV de Portugal, Dom Pedro I do Brasil; Parques de Sintra – Monte da Lua, responsável pelo Palácio Nacional de Queluz e pelo Palácio Nacional de Sintra; Universidade de Évora, incluindo o Colégio do Espírito Santo.
Patrimônio e Referências: Centro do Patrimônio Mundial da UNESCO, com consulta aos dossiês de inscrição do Centro Histórico de Évora, do Centro Histórico de Guimarães e do Santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga; Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), com documentação sobre o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG).
Sites consultados: Arquivo Distrital de Viana do Castelo; Universidade de Coimbra; Biblioteca Joanina; Parques de Sintra; Universidade de Évora; UNESCO; IPHAN; e FamilySearch.
Veja aqui o que você tem que saber antes de viajar: Roteiro histórico por Portugal
Se você quer um seguro viagem, compare os preços e todas as coberturas no buscador MELHOR SEGURO
Como ter internet durante a viagem e Onde Comprar: chip virtual internacional: da Airalo – Roteiro histórico por Portugal
Vale muito a pena: Ao comprar um chip de internet dá pra economizar muito. Não precisei alugar GPS para usar no carro, e usei o Google Maps e o Waze com a internet ilimitada. Faço isso sempre.
Alugue carros com os melhores preços Onde Alugar: RENTCARS – Roteiro histórico por Portugal
Quando viajamos alugamos carro pela RentCars. Você sabia que essa agência é a única no Brasil que compara os melhores preços de locadoras do mundo todo, e te deixa pagar em reais (BRL), sem IOF. Incrível né? Ah, também tem a opção de você pagar em 12x sem juros. Vale muito a pena!
Evite filas para as atrações pelo mundo, compre seus ingressos na Civitatis
Leia mais: 10 pontos turísticos para fugir do óbvio em Lisboa