Suíça e Itália no outono: doze dias de trem na estação mais bonita da viagem
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Viajar de trem pela Suíça e Itália no outono: um roteiro de 12 dias pelos Alpes

O que você vai encontrar nesse artigo

Há uma época do ano em que os Alpes parecem estar em movimento. No verão, os vales permanecem intensamente verdes. No inverno, a neve simplifica a paisagem sob uma camada de branco. A primavera mistura flores, pastos e os últimos vestígios de neve nos picos. Já o outono transforma tudo aos poucos. As árvores mudam de cor, os vinhedos entram na época da colheita e, nas regiões mais altas, a primeira neve começa a redesenhar as montanhas.

Foi nessa estação que atravessamos parte da Suíça e do norte da Itália durante doze dias, seguindo principalmente de trem, de Zurique a Milão. Pelo caminho, passamos por cidades históricas, vilarejos alpinos, vales, geleiras e regiões vinícolas, acompanhando uma transformação que acontecia diante da janela: o verde dos vales cedendo lugar aos tons de amarelo, cobre e dourado, a chegada da neve nas montanhas e, depois, a descida dos Alpes até os vinhedos da Valtellina.

Uma viagem de trem através dos Alpes no momento em que o outono transforma progressivamente a paisagem, levando o viajante do verde e do dourado, à neve, e depois de volta aos vinhedos da Itália.
Uma viagem de trem através dos Alpes no momento em que o outono transforma progressivamente a paisagem, levando o viajante do verde e do dourado, à neve, e depois de volta aos vinhedos da Itália.

A viagem começou justamente em um dos momentos mais simbólicos do outono suíço: a Désalpe, quando o gado deixa os pastos de altitude e retorna aos vales depois do verão. Vacas enfeitadas com flores e grandes sinos descem as montanhas acompanhadas pelos criadores, em uma tradição que ainda marca o calendário rural de várias regiões alpinas.

É uma cena que ajuda a entender o outono por aqui. A estação não é apenas uma mudança de cor. É também uma mudança de ritmo. Os pastos começam a esvaziar, a colheita toma conta dos vales e a paisagem se prepara, lentamente, para o inverno.

Viajar nesse período tem outra consequência importante: o próprio deslocamento se transforma.

No verão, a paisagem tende a permanecer relativamente estável durante a viagem. No outono, especialmente em uma travessia longa pelos Alpes, ela muda diante dos olhos. Uma floresta dourada pode dar lugar a um vale coberto de neblina. Algumas horas depois, surgem os primeiros picos nevados. Mais adiante, depois de cruzar a fronteira italiana, a montanha começa a perder altura e os vinhedos aparecem novamente.

Este texto reúne as duas coisas: um roteiro de doze dias que funciona, testado quilômetro por quilômetro, e um retrato mais amplo do que o outono realmente representa. Reduzir essa viagem a apenas oito cidades seria diminuir a dimensão da experiência.

Porque, no fim, não foram apenas Zurique, Lucerna, Berna, Interlaken, Zermatt, Pontresina, St. Moritz, Tirano e Milão que construíram essa viagem. Foram também os trajetos entre elas: os trens regionais, as estradas alpinas, os vales vistos da janela, as montanhas escondidas pelas nuvens, a neve inesperada e a lenta transformação da paisagem ao longo do caminho.

Este é, portanto, um roteiro para quem quer conhecer a Suíça e o norte da Itália. Mas é também uma viagem sobre outra forma de atravessar a Europa: com tempo suficiente para perceber o que acontece entre um destino e outro.

O que muda quando o verão vai embora

Para entender o que o outono muda, vale primeiro lembrar como é o verão nessa região. Entre junho e agosto, a Suíça e o norte da Itália mostram sua versão mais radiante e expansiva: os dias são longos, com luz até perto das nove da noite, as trilhas de alta montanha estão livres de neve, rios e lagos convidam para nadar e os terraços de café permanecem cheios até tarde. Do lado italiano, o calor se intensifica e as cidades recebem um fluxo extra de turistas.

É a época em que a paisagem alpina está completamente aberta. Os trens panorâmicos cruzam montanhas e geleiras, as trilhas estão acessíveis e viajar exige menos planejamento em torno do clima. Não é preciso pensar tanto em roupas pesadas ou em um plano B para uma mudança brusca de tempo.

Mas esse mesmo esplendor tem seu preço, dos dois lados da fronteira.

Trens panorâmicos e regionais ficam mais disputados, teleféricos acumulam filas e os hotéis dos pequenos vilarejos podem esgotar com meses de antecedência. É uma forma de viajar mais acelerada, sempre em função da próxima parada, da próxima foto e do próximo trem.

Quando o verão termina, esse ritmo muda.

O outono não fecha a Suíça nem interrompe a viagem. Ele simplesmente devolve outro ritmo à região. As plataformas ficam mais tranquilas, as cidades respiram com mais espaço e a paisagem, pela primeira vez no ano, começa a se transformar diante dos olhos.

3 motivos para trocar o verão suíço pelo outono

A primeira coisa que muda é a sensação de tranquilidade.

As mesmas ruas de Lucerna ou do centro de Interlaken que, em julho, recebem um fluxo intenso de visitantes ficam, em outubro, tranquilas o suficiente para caminhar sem a sensação de estar sempre acompanhando o movimento de uma multidão. Na Kapellbrücke, por exemplo, é possível simplesmente parar, olhar para o rio e seguir sem pressa.

Na nossa viagem, isso também apareceu na logística. Conseguimos comprar ingressos de última hora e nunca ficamos sem vaga. A diferença mais perceptível, porém, não foi apenas a disponibilidade. Foi a ausência da pressa que costuma definir a alta temporada.

Viajar em outubro significa encontrar uma região que continua funcionando plenamente, mas em outro ritmo.

A segunda mudança está na cor.

As árvores passam gradualmente do verde ao amarelo-mostarda, ao laranja e ao cobre queimado. Entre elas, alguns pinheiros também mudam de aparência e ganham tons dourados, enquanto outros permanecem verde-escuros, quase negros, durante todo o ano.

Essa diferença se torna ainda mais evidente em uma viagem de trem. A paisagem não é apenas bonita: ela muda ao longo do caminho. O dourado dos vales suíços, os primeiros picos cobertos de neve e, mais tarde, os vinhedos da Valtellina fazem parte de uma mesma travessia.

Se o verão é dominado pelo verde intenso dos vales, a primavera mistura a neve ainda acumulada nos picos às flores silvestres e o inverno cobre a paisagem de branco, o outono é a estação em que a transformação acontece diante dos olhos, dia após dia, dos Alpes às planícies italianas.
Se o verão é dominado pelo verde intenso dos vales, a primavera mistura a neve ainda acumulada nos picos às flores silvestres e o inverno cobre a paisagem de branco, o outono é a estação em que a transformação acontece diante dos olhos, dia após dia, dos Alpes às planícies italianas.

E a terceira mudança é a colheita.

Outubro é mês de vindima nos vinhedos do Valais e de Lavaux, na Suíça, e também nos terraços de parreirais da Valtellina, no norte da Itália. É a época em que a castanha aparece assada nas barracas de rua, especialmente na Itália e no Ticino, mas também em cidades suíças como Berna, onde encontrei um cartucho quentinho vendido diretamente na calçada.

No Valais, a castanha aparece na brisolée, tradição que combina castanhas assadas, vinho e produtos locais. Em cafés e confeitarias suíças, o outono também traz os vermicelles, feitos com purê de castanha em fios e geralmente servidos com chantilly.

É uma estação em que Suíça e Itália comem diferente. E, nessa região, a comida quase sempre revela alguma coisa sobre a geografia, o clima e o momento do ano.

É por isso que viajar no outono não significa apenas encontrar paisagens diferentes ou menos gente. Significa atravessar uma Europa que está mudando de estação enquanto você ainda está dentro dela.

As abóboras tomam conta das feiras e dos cardápios, enquanto os vilarejos entram na época das colheitas e das feiras sazonais.
As abóboras tomam conta das feiras e dos cardápios, enquanto os vilarejos entram na época das colheitas e das feiras sazonais.

O roteiro pela Suíça e Itália: doze dias, oito cidades, um fio condutor

O roteiro foi organizado sempre para seguir sempre adiante, sem retornar a cidades já visitadas:

  1. 1 noite em Zurique,
  2. 2 noites em Lucerna,
  3. 1 noite em Berna,
  4. 3 noites em Interlaken,
  5. 2 noites em Zermatt,
  6. 1 noite em Pontresina,
  7. 1 noite em Tirano e
  8. 1 noite em Milão.

A escolha de permanecer três noites em Interlaken permitiu manter a mesma hospedagem enquanto fazíamos os bate-voltas para Lauterbrunnen, Mürren e Jungfraujoch, sem a necessidade de refazer as malas todos os dias.

Mas o roteiro também foi pensado para acompanhar uma progressão geográfica.

A viagem começa em Zurique e atravessa cidades suíças de diferentes altitudes antes de chegar ao coração dos Alpes, em Zermatt e na região da Engadina. A partir dali, o percurso muda de direção e começa a descer pelo lado sul das montanhas. A neve e os picos alpinos dão lugar, pouco a pouco, aos vales e vinhedos da Valtellina, já na Itália, até a chegada a Milão.

É um percurso linear, mas não apenas eficiente. A ideia foi transformar os próprios deslocamentos em parte da viagem. Em vez de considerar o trem apenas um meio para chegar ao próximo destino, escolhemos uma rota em que a paisagem entre as cidades também fazia parte da experiência.

Como nos deslocamos pela Suíça: Swiss Travel Pass

Para os deslocamentos dentro da Suíça, usamos o Swiss Travel Pass, que simplificou grande parte da logística da viagem. O passe permite utilizar a extensa rede de transporte público do país, incluindo trens, ônibus, barcos e transporte urbano em diversas cidades, sem a necessidade de comprar um bilhete separado para cada trajeto.

Essa facilidade fez diferença em um roteiro como este, com deslocamentos frequentes e mudanças constantes de cidade. Bastava embarcar e seguir viagem.

O passe também inclui a entrada em diversos museus suíços e oferece benefícios em algumas experiências de montanha. As condições variam conforme o destino, por isso vale conferir previamente o que está incluído e quais atrações oferecem desconto.

No nosso roteiro, porém, a maior vantagem foi outra: poder mudar de plano sem transformar cada alteração em uma nova preocupação logística. Em uma viagem de trem pelos Alpes, essa liberdade acabou se tornando parte importante da experiência

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*(Compromisso de transparência: Para manter nossa produção editorial independente e gratuita, participamos de programas de afiliados. Ao efetuar reservas ou compras pelos links disponibilizados no texto, você apoia diretamente nosso projeto sem pagar nada a mais por isso.)

Zurique abre o roteiro não pelos bancos, mas pelas igrejas.

Chegamos a Zurique em um voo matinal, sob uma chuva fina que parecia não dar sinais de que iria parar. Não houve tempo para descanso: deixamos as malas no hotel e saímos a pé mesmo assim, sem guarda-chuva, decididos a atravessar o centro histórico antes que o dia acabasse.

Mesmo sob a garoa, a Suíça já se anunciava avermelhada. O outono não precisa de céu azul para transformar a paisagem.

vista aérea chegando em Zurique
Nem o outono nem a Suíça pedem licença para ser lindos!

Começamos a caminhada pelas margens do rio Limmat, que corta o centro histórico de Zurique. A chuva desenhava círculos discretos na água enquanto seguíamos pelas ruas estreitas da cidade velha até chegar à Igreja de São Pedro, a St. Peter.

Uma das construções religiosas mais antigas da cidade, ela chama atenção de longe pela torre coroada pelo maior mostrador de relógio de igreja de toda a Europa. Mas é a história por trás de suas paredes que realmente impressiona.

Com fundações que remontam ao século IX, a St. Peter foi um dos palcos da Reforma Protestante no século XVI, movimento que questionou os dogmas de Roma e dividiu o cristianismo europeu. Foi ali que atuou como pastor, a partir de 1523, Leo Jud, amigo próximo do teólogo Ulrico Zwingli, líder desse rompimento na Suíça. Juntos, eles trabalharam na histórica Bíblia de Zurique, publicada em 1531 em suíço-alemão, permitindo que a população comum finalmente pudesse ler as Escrituras no próprio idioma.

A torre da histórica Igreja de St. Peter e o maior relógio de igreja da Europa, cercados pelas cores do outono.

Depois, seguimos pelas ruas da cidade velha até avistar as duas torres do Grossmünster, uma das igrejas mais importantes de Zurique.

A fachada de pedra clara, sem excesso de ornamentos, parecia ainda mais sóbria sob o céu cinzento.

Foi dali que Ulrico Zwingli liderou, no século XVI, o rompimento com Roma, quase na mesma época em que Martinho Lutero iniciava a Reforma Protestante na Alemanha. Não há nenhum monumento espalhafatoso ou placa em destaque anunciando isso na entrada. É justamente essa ausência de espetáculo que impressiona: um dos maiores marcos da história religiosa europeia continua ali, serena, integrada à rotina da cidade.

O imponente Grossmünster, templo construído a partir de 1100 e um dos principais cartões-postais da cidade velha de Zurique.
O imponente Grossmünster, templo construído a partir de 1100 e um dos principais cartões-postais da cidade velha de Zurique.

A rota segue pela Augustinergasse, com seus balcões de madeira entalhada escurecidos pela umidade, até desembocar, quase sem aviso, na Bahnhofstrasse. A mudança de cenário é imediata: as ruas estreitas da cidade velha dão lugar a vitrines discretas, embaçadas pelo vapor da chuva fina, que escondem parte do sistema bancário privado mais robusto do planeta.

Pouco adiante, na Münsterhof, a maior praça do centro histórico, outra camada da história europeia aparece. Foi ali que Winston Churchill, em 1946, defendeu publicamente uma futura união entre os países europeus, ideia que, décadas depois, ajudaria a dar forma ao projeto de integração que resultaria na União Europeia. A Suíça, por sua vez, jamais se tornou membro do bloco.

É uma transição que resume bem Zurique: da cidade medieval marcada pela Reforma à potência financeira contemporânea, passando também por um lugar que guarda uma memória importante da própria história política da Europa.

Paramos para almoçar no Swiss Chuchi, restaurante no coração do centro histórico voltado à cozinha suíça autêntica.

Pedimos raclette e o tradicional rösti de batatas douradas. O ritual do queijo derretendo à mesa nos conquistou de imediato, a ponto de comprarmos um aparelho de raclette para levar ao Brasil na mala e repetir a experiência em casa.

Naquele primeiro dia, a refeição cumpriu seu papel com perfeição: confortar o corpo e aquecer a alma depois de horas de caminhada sob a chuva fina.

A tarde foi dedicada ao Kunsthaus Zürich, principal museu de arte da cidade, onde uma importante coleção de obras de Alberto Giacometti ocupa lugar de destaque.

Dormimos no Hotel Storchen, em um edifício histórico voltado para o rio Limmat. Depois de um primeiro dia inteiro caminhando por Zurique sob a chuva, terminar a noite ali parecia uma continuação natural da própria cidade que havíamos acabado de conhecer.

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No dia seguinte, após o café da manhã, seguimos para a estação.

Lucerna:

De Zurique a Lucerna são 45 a 50 minutos de trem, e a paisagem já anuncia outra Suíça, mais rural, mais dourada.

Lucerna: entre o lago, a história e os primeiros Alpes

No dia seguinte, depois do café da manhã, seguimos para a estação. De Zurique a Lucerna são apenas 45 a 50 minutos de trem, mas a paisagem já anuncia outra Suíça, mais rural e mais dourada.

Assim que descemos na estação, o tempo também havia mudado. A garoa de Zurique tinha dado lugar a um sol generoso, e o dia estava simplesmente lindo. Logo à frente, avistamos o Lago de Lucerna, com aquele azul que só aparece quando o céu colabora.

Caminhamos pela orla até a Jesuitenkirche, com sua fachada barroca em tons claros refletida na água, e depois seguimos margeando o rio Reuss até a Kapellbrücke.

A Jesuitenkirche, em Lucerna, parece delicada à beira do Reuss, mas sua história revela a força dos jesuítas na formação cultural e religiosa da Suíça católica do século XVII.

Pouco depois, chegamos à Kapellbrücke, a ponte coberta construída em 1333 que se tornou um dos símbolos de Lucerna. Sob o telhado, painéis triangulares narram episódios da história da cidade e da Suíça. Atravessá-la é como caminhar por dentro de um livro suspenso sobre o rio.

Também visitamos o Löwendenkmal, o Monumento do Leão, esculpido diretamente na rocha e inaugurado em 1821.

O leão ferido não está ali apenas como símbolo de força. Ele representa os Guardas Suíços mortos em Paris, em 1792, durante a defesa do Palácio das Tulherias, residência da família real francesa, atacada pelos revolucionários no início da Revolução Francesa.

Ao lado, a cruz suíça identifica a origem daqueles soldados que haviam deixado seu país para servir à monarquia francesa.

É uma cena de derrota transformada em monumento. Talvez por isso seja impossível permanecer diante dela sem refletir.

Depois, fizemos um passeio de barco pelo Lago de Lucerna.

Os Alpes Centrais começaram a aparecer ao redor da água e, pouco a pouco, Lucerna ganhou outra escala. A cidade histórica ficou para trás, enquanto as montanhas passavam a ocupar o horizonte.

A luz do outono alterava lentamente as cores da paisagem.

Viajo bastante e já tive a oportunidade de conhecer lugares extraordinários pelo mundo, mas Lucerna está, sem dúvida, entre as cidades mais bonitas que já visitei. Há algo na combinação entre o lago, as montanhas, a arquitetura histórica e a atmosfera tranquila da cidade que a torna especialmente difícil de esquecer.

Se a viagem coincidir com um sábado, vale incluir também o mercado de produtores da cidade, onde produtos da região ajudam a revelar uma Lucerna que existe para além de suas pontes, igrejas e monumentos.

Erguida entre 1633 e 1639 sobre as ruínas de uma basílica do século VIII destruída pelo fogo, a imponente Igreja de São Leodegar se destaca na paisagem de Lucerna como um dos mais importantes marcos católicos da cidade.

Para o almoço, escolhemos o Wirtshaus Galliker, endereço histórico de Lucerna mantido pela mesma família desde 1856.

Ali provamos a autêntica Chügelipastete, especialidade local preparada com massa folhada e recheio cremoso de carne e cogumelos, uma receita ligada à antiga cozinha burguesa da região.

Depois do almoço, subimos até a Museggmauer, a muralha medieval que contorna o lado norte do centro histórico de Lucerna.

Construída a partir do final do século XIV, a muralha chegou a ter trinta torres. Nove sobreviveram praticamente intactas, e quatro podem ser visitadas: Männli, Zyt, Wacht e Schirmer.

Caminhar sobre ela é como atravessar um corredor suspenso entre o passado e o presente da cidade.

Na Zytturm está o relógio mais antigo da Suíça Central, instalado em 1535 e que, por tradição, badala um minuto antes dos outros relógios de Lucerna.

Do alto, a vista se abre sobre os telhados da cidade velha, o Lago de Lucerna e, em dias claros, os picos do Monte Pilatus ao fundo.

A visita à muralha deve entrar no planejamento de quem viaja entre abril e o início de novembro, período oficial em que o monumento permanece aberto ao público antes de fechar para o inverno alpino.

O melhor de tudo é que o passeio pelas torres e passarelas é totalmente gratuito, contando apenas com uma caixa na saída para doações voluntárias destinadas à preservação do patrimônio histórico.

Do alto da muralha de Lucerna, a vista se abre para os telhados da cidade velha, a Altstadt, o Lago de Lucerna e, em dias claros, para os picos do Monte Pilatus ao fundo.

Para dormir, escolhemos o Hotel des Balances, na cidade velha, junto ao rio Reuss.

Lucerna e as montanhas: Rigi, Pilatus e Titlis

O terceiro dia da viagem é dedicado à altitude. A partir de Lucerna, há diferentes maneiras de chegar aos Alpes, e três delas se destacam no roteiro: o Monte Rigi, o Monte Pilatus e o Titlis.

Cada uma oferece uma experiência bastante diferente. O Rigi combina lago, trem e uma subida mais contemplativa; o Pilatus impressiona pela engenharia e pela dramaticidade da montanha; e o Titlis leva a uma paisagem de alta montanha, com gelo e neve em altitude.

Monte Rigi: a montanha sobre trilhos

Conhecido como a Rainha das Montanhas, o Monte Rigi pode ser alcançado em uma das combinações mais bonitas da região: barco pelo Lago de Lucerna até Vitznau e, dali, trem de cremalheira até Rigi Kulm.

A subida faz parte da experiência. A ferrovia, inaugurada em 1871, transformou em trajeto ferroviário uma encosta que, até então, parecia pertencer apenas a quem estivesse disposto a subi-la a pé. No alto, a paisagem se abre sobre o Lago de Lucerna, o Lago Zug e os Alpes.

É uma experiência mais ampla e contemplativa, em que o percurso importa tanto quanto a chegada.

Monte Pilatus: onde a engenharia desafia a montanha

O Monte Pilatus oferece uma experiência completamente diferente. Sua ferrovia de cremalheira, inaugurada em 1889, vence uma das encostas mais íngremes já percorridas por um trem e continua sendo oficialmente a mais íngreme do mundo em operação.

A subida é parte essencial da atração. Enquanto o Rigi convida a observar a paisagem aos poucos, o Pilatus impressiona pela sensação de que a ferrovia está enfrentando uma montanha que não parecia feita para receber trilhos.

E há uma curiosidade sobre o nome que sempre despertou minha atenção e que preciso compartilhar com vocês: afinal, o que Pôncio Pilatos, governador romano da Judeia, teria a ver com uma montanha no coração da Suíça?

A resposta está menos na história e mais na lenda. Durante séculos, acreditou-se que, depois de sua morte, o corpo de Pôncio Pilatos teria sido lançado em um lago no alto da montanha. Seu espírito continuaria ali e qualquer perturbação nas águas poderia provocar violentas tempestades. A crença foi levada tão a sério que, durante muito tempo, o acesso ao lago chegou a ser proibido.

A associação entre a montanha e Pôncio Pilatos faz parte, portanto, de uma antiga tradição local. A origem real do nome Pilatus, porém, é discutida.

No outono, é importante conferir o calendário de funcionamento. As operações das diferentes rotas de acesso podem ser alteradas durante a transição para o inverno.

Titlis: quando a viagem já chega à neve

Para quem quer uma experiência de alta montanha, o Titlis é outra possibilidade a partir de Lucerna. A viagem segue até Engelberg e, de lá, continua montanha acima até uma paisagem completamente diferente daquela encontrada às margens do Lago de Lucerna.

É a opção para quem procura encontrar gelo e neve em altitude, mesmo quando o outono ainda domina os vales lá embaixo.

Essa é, aliás, uma das características mais interessantes da Suíça nessa época do ano: em poucas horas, é possível sair de uma cidade cercada por árvores douradas e chegar a uma paisagem de alta montanha onde o inverno já começa a se impor.

As três experiências mostram lados diferentes dos Alpes. A escolha depende menos de qual é “a melhor” e mais do que se procura naquele dia: uma viagem contemplativa sobre lagos e montanhas, uma subida ferroviária marcada pela engenharia ou o encontro com a neve em alta altitude.

Reserve aqui seu passeio: Lucerna: Teleférico do Monte Pilatus, Trem de cremalheira e Cruzeiro no Lago

No outono, porém, é fundamental prestar atenção ao calendário de funcionamento. Algumas rotas de montanha, barcos e ferrovias panorâmicas reduzem ou interrompem as operações durante a transição para o inverno, e os horários podem variar de acordo com o período da viagem.

Por isso, vale sempre conferir o funcionamento antes de montar o roteiro.

No fim da tarde, de volta a Lucerna, a cidade mudou novamente de ritmo. As fachadas da cidade velha receberam a luz baixa do outono, as mesas começaram a se ocupar e o rio Reuss passou a refletir as primeiras luzes.

Depois de um dia entre lagos, montanhas e ferrovias históricas, foi na escala pequena de Lucerna que o dia terminou: caminhando pelas ruas antigas, atravessando novamente a Kapellbrücke e acompanhando o rio até o hotel.

Berna

Uma hora de trem separa Lucerna de Berna, e o contraste é imediato: saímos de uma cidade moldada pela água e pelas montanhas para chegar à capital federal da Suíça, mais solene, mais compacta e, ao mesmo tempo, surpreendentemente medieval.

Berna é a única capital nacional do mundo cujo centro histórico permanece quase integralmente medieval, reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO desde 1983. Caminhar por suas ruas é entrar em uma cidade onde a estrutura urbana de séculos atrás continua fazendo parte da vida cotidiana

Berna no outono parecia ter sido cuidadosamente pintada: o dourado das árvores, o vermelho das folhas e a arquitetura histórica da cidade criavam uma paisagem cinematográfica.

As arcadas que cobrem os passeios, por exemplo, nos protegeram naquele dia da chuvinha e do vento de outubro, exatamente como fazem há séculos.

As arcadas sob as quais caminhávamos têm nome: Lauben. Elas somam cerca de seis quilômetros de extensão e formam uma das mais longas galerias comerciais cobertas da Europa.

Sua origem tem relação com um dos episódios mais importantes da história urbana de Berna. Depois de um incêndio devastador, em 1405, boa parte da cidade precisou ser reconstruída. Os novos edifícios, erguidos em arenito, avançaram sobre os passeios, criando esse sistema contínuo de arcadas que hoje abriga lojas, cafés e antigas adegas subterrâneas transformadas em bares.

Foi debaixo dessas mesmas arcadas que Albert Einstein caminhava no início do século XX, quando trabalhava no escritório de patentes de Berna e morava poucos metros dali. Foi durante esse período, em 1905, que ele desenvolveu alguns dos trabalhos que transformariam a física moderna, entre eles a Teoria da Relatividade.

Sob as arcadas lojas, cafés e entradas discretas se sucedem ao longo das ruas de arenito.

A caminhada nos levou até a Zytglogge, a famosa torre do relógio.

Seu mecanismo astronômico marca as horas desde 1530 e, a cada hora cheia, reúne visitantes diante do pequeno espetáculo de figuras mecânicas que se movimentam ao som do relógio, em uma tradição que atravessa quase cinco séculos.

Foi uma das cenas que mais gostei de observar em Berna: pessoas parando no meio do caminho e esperando, por alguns minutos, o relógio fazer exatamente aquilo que faz há gerações.

A caminhada nos levou até a Zytglogge, a famosa torre do relógio.
Muitos visitantes se reúnem diante do Zytglogge, em Berna, para acompanhar, a cada hora, o pequeno espetáculo do seu mecanismo histórico: figuras que se movimentam ao som do relógio, em uma tradição que atravessa séculos.

Pouco depois, chegamos ao Bundeshaus, sede do Parlamento Federal. É um dos edifícios que melhor ajudam a entender a própria construção da Suíça.

Sua arquitetura e decoração fazem referência à diversidade cultural do país, onde alemão, francês, italiano e romanche são línguas nacionais. Mais do que representar uma identidade única e homogênea, o Parlamento expressa uma ideia central da Suíça: diferentes regiões, culturas e idiomas preservando suas particularidades dentro de uma mesma estrutura política.

Logo em frente fica a Bundesplatz, a principal praça política de Berna. No centro, 26 jatos de água representam os 26 cantões suíços, em uma imagem simples da organização federal do país: diferentes unidades reunidas em uma mesma Confederação.

Berna inteira se enrosca em uma grande curva do rio Aare. No verão, perto do Parlamento, moradores entram na água e se deixam levar pela correnteza, descendo o rio com os pertences protegidos em bolsas impermeáveis.

Bem perto do Palácio Federal, sede do governo suíço, paramos no Bärenpark, o parque dos ursos que dá nome à própria cidade.

Foi ali que ficamos sabendo da lenda: o duque Berchtold V de Zähringen, fundador de Berna em 1191, prometeu batizar a futura cidade com o nome do primeiro animal que encontrasse numa caçada na floresta que seria derrubada para dar lugar às construções. O animal foi um urso, Bär em alemão, e assim nasceu o nome Bärn, hoje Berna. Desde então, o urso virou o símbolo oficial da cidade, estampado no brasão e na bandeira, e ursos de verdade vivem ali desde pelo menos 1513, quando soldados berneses voltaram de uma batalha trazendo um filhote como troféu de guerra.

Não somos entusiastas de animais em cativeiro, por mais que o espaço atual, às margens do rio Aare, seja bem mais amplo e humanizado do que os antigos fossos de pedra que existiram ali por séculos. Ainda assim, é impossível contar a história de Berna sem passar por esse detalhe: poucas capitais do mundo carregam no próprio nome a lembrança de um animal, e menos ainda mantêm essa relação viva há mais de oitocentos anos.

Procuramos os moradores atuais do parque pelas margens do rio, mas eles preferiram não aparecer, escondidos entre as árvores ou talvez apenas cochilando fora de vista. Ficou a curiosidade satisfeita, mesmo sem o encontro.

A poucos passos dali, ergue-se a Berner Münster, a Catedral de Berna, maior igreja gótica de toda a Suíça.

Sua construção começou em 1421 e se arrastou por mais de quatro séculos, atrasada por pragas, guerras e falta de recursos, até que a torre finalmente ficasse pronta em 1893, alcançando os atuais 101 metros de altura, recorde entre os templos do país.

No portal principal, mais de duzentas figuras esculpidas em pedra retratam o Juízo Final, com o Paraíso de um lado e o Inferno do outro, um lembrete silencioso de que a fé, aqui, sempre foi levada a sério. Subir os 344 degraus até o topo da torre é trocar a arquitetura gótica pela vista dos Alpes Berneses, com o Eiger e o Jungfrau recortando o horizonte, e o rio Aare serpenteando lá embaixo como se também quisesse admirar a cidade que abraça.

E o jantar daquela noite não foi em um restaurante.

Fomos para a casa de nossos primos. A prima de Fernando se casou com um suíço e hoje vive em Berna com ele, com 2 filhos. A mesa daquela noite acabou reunindo duas histórias que, à primeira vista, parecem distantes, mas que a vida tratou de aproximar.

Ele morou um tempo no Brasil com a esposa e os filhos, e guarda do país uma relação que vai muito além das lembranças de uma temporada vivida longe de casa. Falou do Brasil com saudade, reconheceu nos nossos hábitos pequenos gestos que ainda lhe são familiares e se identificou com a nossa maneira de conversar, de prolongar a refeição e de transformar o jantar em tempo de convivência. Para a família, estar conosco naquela noite parecia também uma forma de reencontrar um pedaço do país que deixou para trás.

Foi uma daquelas noites que não cabem em um roteiro turístico. Em torno da mesa, entre histórias da Suíça e lembranças do Brasil, a viagem ganhou uma dimensão diferente. Pela primeira vez naquele percurso, não estávamos apenas conhecendo um país: estávamos entrando, ainda que por algumas horas, na vida de quem escolheu fazer dele sua casa.

Uma curiosidade que Fernando e eu adoramos descobrir por lá: o refrigerante suíço Rivella, presente em praticamente todas as mesas do país, é feito à base de soro de leite, o subproduto líquido que sobra da produção de queijo, normalmente descartado pela indústria.

A receita, criada em 1952, é guardada a sete chaves pela família fundadora até hoje. E apesar da origem improvável, o sabor não lembra leite em nada: é uma bebida gaseificada e levemente herbal, que os suíços tomam no dia a dia como quem bebe um refrigerante qualquer.

E no dia seguinte, fomos pra Interlaken.

Cinquenta minutos depois, Interlaken abre a porta real dos Alpes berneses.

A cidade existe, historicamente, como corredor entre 2 lagos (Thun e Brienz), e cumpre até hoje essa função de base. Um passeio de barco pelo Brienz revela aquele azul-turquesa que parece editado digitalmente, mas é resultado de farinha glacial, partículas de rocha moída pelo gelo que ficam em suspensão na água e refletem a luz de um jeito incrivelmente belo.

Saímos do trem, deixamos as malas no hotel e já fomos para Lauterbrunnen.

Lauterbrunnen é um vilarejo e concentra 72 quedas d’água diferentes num único vale esculpido em formato de U pelo gelo.

As paredes quase verticais de rocha, cheias de cachoeiras, emolduram um vale plano e verde, com chalés de madeira espalhados entre pastagens que em outubro já viravam um mosaico de amarelos e ferrugens, contrastando com o cinza da pedra e o branco das primeiras neves nos picos ao fundo.

Foi por esse vale que cruzamos com dezenas de vacas descendo das pastagens de altitude: a mesma descida do gado que já tínhamos visto de longe, agora batizada localmente de Alpabzug, já que aqui a Suíça fala alemão.

É o ritual anual que marca o fim do verão alpino, quando o gado retorna aos estábulos do vale após meses inteiros pastando a mais de dois mil metros de altitude. Segundo os produtores locais, são justamente as ervas silvestres dessas pastagens de montanha que dão aos queijos alpinos suíços seu sabor tão típico. O som dos chocalhos ecoando pelas paredes de rocha antes mesmo de avistarmos o rebanho tornou aquele momento tão inesquecível quanto qualquer cachoeira do vale.

Cachoeiras despencando dos paredões, picos cobertos de neve, chalés, vacas e as cores do outono compunham a paisagem de Lauterbrunnen. Um daqueles lugares que parecem reunir, em um único cenário, tudo o que imaginamos quando pensamos na Suíça. Sem dúvida, um dos lugares mais lindos que já visitei na minha vida.

Vimos as vaquinhas pelo caminho até a famosa Staubbach Falls, uma cachoeira que desce quase 300 metros dos paredões rochosos bem no meio do vilarejo de Lauterbrunnen. Ela não é a mais alta da Suíça, esse título fica com outras quedas da região, mas talvez seja a mais fascinante: o volume de água se transforma em névoa antes de tocar o chão do vale, criando uma espécie de nuvem que balança ao vento.

A paisagem daqui impressionou até o escritor alemão Goethe, que visitou a região no século XVIII e se inspirou na Staubbach Falls para escrever um de seus poemas. Mais de um século depois, a paisagem alpina de Lauterbrunnen também seria associada a Valfenda, o refúgio dos elfos criado por J. R. R. Tolkien em O Senhor dos Anéis.

Vale a pena subir pela trilha que leva à galeria atrás da Staubbach Falls. O caminho, com escadas e um trecho de túnel escavado na rocha, leva a um ponto de observação de onde é possível ver a cachoeira de trás, em meio à névoa formada pela água. A caminhada é curta, gratuita e exige apenas um pouco de atenção, já que o piso pode ficar úmido e escorregadio. A galeria costuma funcionar de maio a outubro.

Foi nosso primo, que vive na Suíça, quem deu a dica de conhecer Mürren partindo de Lauterbrunnen.

Como sempre gostamos de seguir sugestões de quem mora no lugar, resolvemos conferir. De lá, pegamos um teleférico até Mürren, vilarejo suspenso sobre um penhasco sem nenhum acesso rodoviário direto, onde o silêncio tem uma qualidade específica: só vento e, ao longe, algum sino de vaca.

Todo esse trajeto está incluído no Swiss Travel Pass, sem custo adicional. Quem quiser esticar segue até Birg, a 2.677 metros, de onde se vê de frente o trio Eiger, Mönch e Jungfrau alinhado como se tivesse sido posicionado ali de propósito; nesse trecho final, o passe já não cobre a viagem por completo, mas garante 50% de desconto no bilhete complementar.

À noite, saímos para caminhar sem pressa por Interlaken.

À noite, saímos para caminhar sem pressa por Interlaken. Depois de um dia explorando as paisagens ao redor, a cidade parecia ganhar outro ritmo, mais tranquilo e intimista. As vitrines iluminadas, os cafés e o movimento discreto de quem ainda passeava pelas ruas contrastavam com a silhueta escura dos Alpes ao fundo.

Para o jantar da primeira noite, escolhemos o Restaurant Schuh, uma tradicional confeitaria e casa de chá cuja história remonta a 1818, localizada no centro de Interlaken. Entre as especialidades da casa está a Schuh-Torte, um bolo de chocolate que se tornou uma das marcas da confeitaria.

No dia seguinte, embarcamos rumo ao Jungfraujoch, a estação ferroviária mais alta da Europa, apelidada de “Topo da Europa” por ficar encravada a 3.454 metros de altitude, entre os picos do Eiger e do Mönch.

De Interlaken, seguimos de trem até Grindelwald e, de lá, embarcamos no Eiger Express, um moderno teleférico que sobrevoa o vale até a estação de Eigergletscher, a 2.320 metros de altitude.

O trecho final é feito no tradicional trem de cremalheira, com trilhos dentados que ajudam o trem a vencer a forte subida pela montanha. A ferrovia atravessa o interior do Eiger e do Mönch, por um túnel escavado diretamente na rocha, até chegar ao Jungfraujoch, a 3.454 metros de altitude, onde está a estação ferroviária mais alta da Europa. A ferrovia foi inaugurada em 1912, depois de anos de obras para abrir caminho pelas montanhas.

Lá em cima, o horizonte se abre para um cenário de gelo, neve e grandes picos alpinos. Um dos destaques é o Sphinx, observatório e estação de pesquisa científica, onde são realizados estudos de meteorologia, radiação, raios cósmicos e outros fenômenos.

As áreas de pesquisa são restritas aos cientistas, mas a plataforma panorâmica é aberta aos visitantes e pode ser alcançada por um elevador que sobe mais de 100 metros em poucos segundos.

Em dias de céu aberto, a vista alcança o glaciar Aletsch, o maior dos Alpes, cercado por picos que ultrapassam os 4.000 metros. Mas essa paisagem monumental também revela uma mudança preocupante: segundo dados do monitoramento suíço, esse glaciar recuou mais de 1 quilômetro desde 1980, além de ter perdido espessura. É uma lembrança impressionante de que até essas paisagens aparentemente eternas estão sendo transformadas pelo aquecimento do planeta.

Vale explorar também o Palácio de Gelo, uma sequência de túneis esculpidos direto no glaciar na década de 1930, com esculturas de animais talhadas no gelo, e o Plateau, uma área externa aberta que permite caminhar sobre a neve eterna e fotografar de perto o cenário alpino.

Pegamos, porém, um dia de tempo muito fechado, com neblina cobrindo boa parte da vista dos picos. Fica a dica para quem for: se tiver flexibilidade no roteiro, vale a pena checar a previsão do tempo antes de decidir o dia da subida, porque a vista lá de cima, quando o céu está aberto, é um dos pontos altos (literalmente) de qualquer viagem à Suíça.

À tardinha, de volta a Interlaken, subimos de funicular até o Harder Kulm para assistir ao pôr do sol.

Passamos pela Höhematte, o grande parque central de Interlaken, onde, durante o dia, os parapentes pousam depois de descer das montanhas. Entre o gramado impecavelmente cuidado e os hotéis elegantes ao redor, encontramos também vacas pastando tranquilamente, como se, em Interlaken, a fronteira entre cidade e Alpes simplesmente não existisse.

A Suíça é conhecida pela tecnologia, pelos trens pontuais e pela infraestrutura impecável, mas encontrar vacas pastando tranquilamente no principal parque urbano de Interlaken mostra uma outra faceta do país. Quem imaginaria encontrar esse cenário tão rural no coração de uma das cidades mais turísticas da Suíça? Talvez seja justamente essa mistura entre modernidade e tradição que torne o país tão interessante e especial.

Subimos pela Harderbahn, um tradicional funicular que percorre o trajeto até o Harder Kulm em cerca de dez minutos, superando um desnível de mais de 750 metros até chegar aos 1.322 metros de altitude. A própria subida já revela belas paisagens, mas é lá em cima que o cenário realmente impressiona.

O Harderbahn, tradicional funicular de Interlaken, sobe em meio às cores do outono rumo ao Harder Kulm, um dos mirantes mais impressionantes da região.

Seguimos até o Two Lakes Bridge, uma plataforma panorâmica que parece suspensa sobre a montanha. De um lado está o Lago Thun, do outro o Lago Brienz, e, ao fundo, aparecem os imponentes Eiger, Mönch e Jungfrau. A vista ajuda a entender, de forma muito clara, por que Interlaken recebeu esse nome: a cidade está situada entre dois lagos.

Harder Kulm para assistir ao pôr do sol
Harder Kulm para assistir ao pôr do sol

À medida que o sol desaparecia atrás dos Alpes, Interlaken começava a acender suas luzes lá embaixo, e a paisagem mudava completamente. Ficamos ali vendo o dia dar lugar à noite, com os lagos escurecendo aos poucos e a cidade ganhando novos contornos.

Harder Kulm para assistir ao pôr do sol
Harder Kulm para assistir ao pôr do sol

O local também conta com um restaurante panorâmico, onde jantamos uma deliciosa raclette, além de um pequeno parque para crianças.

Uma informação útil: o Swiss Travel Pass não dá gratuidade no funicular, mas oferece desconto de até 50% em determinadas excursões de montanha, incluindo o Harder Kulm.

Interlaken foi o lugar onde a Suíça pareceu reunir tudo o que viemos buscar: lagos de águas cristalinas, montanhas imponentes, vilarejos alpinos, vacas nos campos e uma natureza grandiosa convivendo com uma cidade charmosa e cheia de vida. Saímos de lá com a sensação de que alguns lugares, além de serem bonitos, simplesmente precisam ser conhecidos.

E no dia seguinte, fomos pra Zermatt.

Zermatt, sem carros desde o início do século XX, é a vila onde o Matterhorn domina literalmente qualquer ângulo de visão.

Cerca de duas horas e quarenta minutos de trem separam Interlaken de Zermatt. A chegada foi marcada por uma mudança radical de cenário: o outono ficou para trás e, de repente, a paisagem passou a ser dominada pelo branco da neve, cobrindo montanhas, telhados e arredores da cidade.

Chegando em Zermatt, Suíça.
A mudança da vegetação e as montanhas branquinhas pareciam anunciar que o inverno já havia chegado por ali, criando uma paisagem tão impressionante que dava vontade de parar o tempo e simplesmente ficar olhando.

Zermatt, no cantão do Valais, é a porta de entrada para o Matterhorn, o famoso pico em forma de pirâmide que se tornou um dos grandes símbolos dos Alpes. Sua silhueta quase perfeita despertou o interesse dos alpinistas desde o século XIX. A primeira conquista do cume aconteceu em 1865, mas terminou em tragédia: quatro dos sete integrantes da expedição morreram durante a descida.

O vilarejo tem o charme típico dos destinos alpinos, com chalés de madeira, hotéis, lojas e restaurantes espalhados pelas ruas. No inverno, Zermatt se transforma em um dos grandes destinos de esqui da Suíça, enquanto o verão atrai quem vem em busca das trilhas e das montanhas. No outono, quando estivemos lá, encontramos um ritmo bem mais tranquilo, com menos movimento nas ruas.

Muitos hotéis têm vista para o Matterhorn. Ficamos no Hotel Parnass, que possui quartos com vista direta para a montanha, e acordar com aquela paisagem era, por si só, uma experiência.

Expectativa da vista da nossa janela, foto retirada da Booking

Nas montanhas acima do vilarejo, mesmo em outubro, ainda há neve suficiente para caminhadas em algumas áreas. O problema é que, durante os dois dias em que ficamos em Zermatt, o Matterhorn simplesmente não apareceu. Eu poderia ter ficado frustrada, mas aconteceu algo que compensou completamente: pela primeira vez na vida, vi neve cair. Foi uma daquelas experiências que nunca mais vou esquecer, daquelas que nenhum roteiro ou previsão de viagem consegue garantir.

Realidade da vista da nossa janela em Zermatt.

Vejo beleza na falta de visibilidade.
Me sentindo dentro de um daqueles globos de neve. ❄️
Nem sempre a montanha precisa aparecer para que a paisagem seja bonita.

À noite, fomos ao Brown Cow Pub, um dos lugares mais descontraídos de Zermatt. Localizado no centro do vilarejo, o pub tem ambiente informal e movimentado, com decoração em madeira e uma atmosfera animada. Foi uma escolha de bom custo-benefício e uma forma agradável de encerrar o dia.

No dia seguinte, subimos ao Gornergrat, um dos principais mirantes dos Alpes, localizado a 3.089 metros de altitude.

O acesso é feito por um trem de cremalheira que parte de Zermatt e percorre a montanha em meia hora. Em dias de boa visibilidade, do alto é possível avistar cerca de 30 picos com mais de 4.000 metros, além de várias geleiras.

Eu, as montanhas e um glaciar suíço à minha direita.
E a neve caía, parava e depois voltava a cair.

Nossa esperança era finalmente ver o Matterhorn, que havia se escondido atrás das nuvens durante toda a nossa estadia em Zermatt. Mas, mais uma vez, não tivemos sorte. A montanha continuava completamente encoberta.

Alguns lugares fazem a gente entender por que veio até tão longe. O Gornergrat foi um deles.
Alguns lugares fazem a gente entender por que veio até tão longe. O Gornergrat foi um deles.

Foi então que entramos no ZOOOM the Matterhorn.

Uma experiência multimídia instalada no próprio Gornergrat, com periscópios que aproximam a imagem da montanha, uma sessão de cinema 3D e um voo virtual de parapente. Mesmo com o tempo fechado, conseguimos conhecer o Matterhorn de perto. A entrada está incluída no bilhete de ida e volta do Gornergrat, e quem tem o Swiss Travel Pass paga apenas metade do valor do trem.

Foi curioso: infelizmente não conseguimos ver o Matterhorn com nossos próprios olhos, mas acabamos conhecendo a montanha de uma maneira completamente diferente. E talvez seja essa a graça de viajar: às vezes, o que não acontece como planejado acaba criando uma lembrança ainda mais inesperada.

No topo do Gornergrat, a 3.100 metros de altitude, além da capela onde ainda se celebra missa aos domingos, funcionam o Kulmhotel Gornergrat, o hotel mais alto dos Alpes suíços, e um shopping center considerado o mais alto da Europa, com lojas de relógios, canivetes e chocolates suíços.

A pequena capela de Santa Bernadette, no alto do Gornergrat, cercada pelas montanhas e pela neve.
Até na caixa de chocolates, o Matterhorn aparece para decorar.

No dia seguinte, encaramos o trecho mais longo da viagem: de Zermatt a Pontresina.

Saindo de Zermatt, a neve caía firme lá fora, cobrindo tudo de branco, num espetáculo emocionante para quem nunca tinha visto neve cair antes. O trem ia descendo pelo vale estreito entre paredões de rocha, e a cada curva o cenário lembrava aqueles globos de vidro que a gente balança na mão para ver os flocos rodopiarem. Só que ali era de verdade, e nós estávamos dentro dele.

Esse trajeto faz o percurso clássico do Glacier Express, famoso por ser o trem expresso mais lento do mundo: cerca de oito horas para percorrer quase 300 quilômetros, passando por 291 pontes e 91 túneis erguidos entre 1880 e 1930, até alcançar seu ponto mais alto no Passo Oberalp, a 2.033 metros.

Por viajarmos em outubro, esbarramos no calendário de baixa temporada. O trem panorâmico estava na sua pausa anual de manutenção e dois trechos da linha regional passavam por obras na mesma semana: entre Täsch e Visp, e entre Andermatt e Disentis.

O resultado foi uma verdadeira maratona logística, e das boas. Emendamos trem, ônibus, trem de novo e mais um ônibus. Fomos de trem até Täsch, pegamos um ônibus substituto até Visp, voltamos para os trilhos até Andermatt, descemos para um segundo ônibus até Disentis e só então entramos no trem final até Chur e Pontresina. Quatro baldeações alternando estrada e ferrovia.

Nos trechos de trem regional, a vista pela janela é exatamente a mesma do trem panorâmico, já que os trilhos são os mesmos.

E nos trechos de ônibus, a estrada segue pelo fundo do vale, passando bem mais perto dos chalés, das árvores e dos rios.

Depois de Täsch, o vale foi se afunilando entre rochas e riachos gelados. Subindo em direção a Andermatt, a vegetação foi rareando até sumir, deixando para trás apenas a pedra escura e o gelo fino no topo dos picos. Entre Andermatt e Disentis, cruzamos o ponto mais alto de toda a rota, o Passo Oberalp, a 2.033 metros de altitude, onde o vale se abriu inteiro lá embaixo.

Passei a viagem inteira repetindo que aquela paisagem era a mais deslumbrante de todas, até a curva seguinte me provar o contrário. Pode parecer clichê, mas é a pura verdade: na Suíça, o cenário mais marcante é sempre o próximo.

Achamos a princípio que a viagem perderia o encanto no meio de tanta baldeação entre trens e ônibus. Nos enganamos. Não estávamos ali com pressa de chegar a algum lugar, estávamos ali pelo próprio caminho. Cada parada numa plataforma pequena virava desculpa para olhar a montanha mais um pouco. Para quem viaja no outono, período de manutenção e obras nas linhas, fica a constatação: as trocas de transporte não são um problema a ser evitado, são parte do próprio passeio.

Um passageiro muito suíço, a caminho de mais uma paisagem bonita.
Passando por Disentis/Mustér, Suíça.

Chegamos ao Alto Engadin já no fim da tarde, mas fomos direto para Pontresina, sem passar por St. Moritz naquela noite.

A escolha fazia sentido pelo plano do dia seguinte: de lá sairíamos direto para pegar o Bernina Express, já que Pontresina fica exatamente na linha do Bernina, a cerca de 6 quilômetros de St. Moritz, num trecho à parte da linha reta que vínhamos fazendo desde Zermatt, conectado a ela por uma baldeação rápida, de poucos minutos.

Pontresina é uma vila alpina no vale de Bernina, com cerca de 1.800 metros de altitude, localizada entre o maciço do Bernina e a floresta protegida que sobe pela encosta, na entrada do Val Roseg, vale declarado “zona de silêncio” pelos municípios de Pontresina e Samedan para preservar toda a fauna que vive por ali.

Ao contrário de St. Moritz, que se organiza em torno do lago e vive há mais de um século como point de esqui, moda e badalação internacional, Pontresina cresceu com outro perfil: mais tranquila, mais voltada para quem busca trilha e montanhismo do que para quem busca vitrine de loja de luxo.

A escolha por Pontresina, em vez de St. Moritz, teve dois motivos práticos. O primeiro é o custo: a hospedagem costuma ter valores mais acessíveis do que na vizinha famosa, sem abrir mão do conforto nem da vista para as montanhas.

O segundo motivo é a localização. A vila é plana, agradável para caminhar e serve de ponto de partida para trilhas fantásticas. Dali partem trilhas com vista para várias geleiras da região, em especial a do Morteratsch, a maior delas, com quase sete quilômetros de extensão.

A vila também conta com um funicular que leva a um mirante com vista para os cinco lagos da Alta Engadina, além do teleférico da Diavolezza, de onde se avista o Piz Bernina, o pico mais alto da região, com mais de 4.000 metros. Logo acima do vilarejo fica ainda o Piz Albris, lar da maior colônia de cabras dos Alpes.

À noite, o silêncio da floresta desce sobre as ruas quase como um cobertor, interrompido apenas pelo som eventual de um riacho ou pelo sino da igreja. Jantamos ali mesmo, no Restaurant Sporthütta. O lugar pertence ao nosso hotel, o Sporthotel Pontresina, e bastava atravessar a rua para chegar.

É especializado em cozinha bündner, a culinária tradicional dos Grisões, e comemos fondue, puro conforto depois de um dia inteiro trocando de trem e ônibus. Voltamos a pé sem pressa, respirando aquele ar seco e gelado de montanha, sabendo que, no dia seguinte, pegaríamos um ônibus local até St. Moritz, com a passagem coberta pelo Swiss Travel Pass, prontos para embarcar no Bernina Express.

Nossa escolha de hospedagem recaiu sobre o tradicional Sporthotel Pontresina, um clássico de traços Art Nouveau fundado no século XIX, que combina história alpina e fácil acesso às trilhas da região

A vista da nossa janela em Pontresina: montanhas brancas, árvores em tons quase negros e dourados e aquele outono suíço que parece ter saído de uma pintura.

No dia seguinte, pegamos o Bernina Express rumo a Tirano.

Antes, porém, reservamos a manhã para rodar um pouco por St. Moritz, já que, na noite anterior, tínhamos ido direto para Pontresina sem nem passar por lá.

St. Moritz se divide em duas partes: a baixa, à beira do lago, e a alta, onde ficam os hotéis históricos, o comércio de luxo e o centro. O primeiro programa imperdível é justamente a caminhada à beira do Lago St. Moritz, um circuito de cerca de cinco quilômetros que serve de cartão-postal da cidade.

Do lago, seguimos até o centro histórico para ver a Torre Inclinada de St. Moritz, os únicos 33 metros que restaram da antiga Igreja de São Maurício, e que guarda uma curiosidade e tanto: sua inclinação de 5,5 graus é maior do que a da Torre de Pisa, que tem 3,9 graus.

Por fim, passamos pela Via Serlas, a rua principal de compras da cidade, com vitrines de grife que resumem bem o clima de badalação internacional que fez a fama do lugar desde o século XIX.

O último dia na Suíça fechou com o Bernina Express, Patrimônio Mundial da UNESCO pela engenharia da linha construída entre 1906 e 1910.

O Bernina Express liga a Suíça à Itália por um dos trajetos ferroviários mais impressionantes do mundo, atravessando montanhas, glaciares e vales que, no outono, ganham diferentes tons de dourado, verde e marrom.

Os números da linha do Bernina Express já dão o tom da viagem: 55 túneis, mais de 196 pontes, quase 140 quilômetros entre a cidade suíça de Chur e a italiana Tirano, um traçado erguido entre 1906 e 1910. O trecho completo, de ponta a ponta, leva cerca de quatro horas, mas nós embarcamos em St. Moritz, metade do caminho, o que reduziu nossa viagem a pouco mais de duas horas até Tirano. É uma das opções de partida do trajeto: também dá para subir no trem em Chur, mais ao norte, e descer tanto em Tirano quanto em Poschiavo, do lado italiano.

Os preços variam conforme o trecho, mas quem tem o Swiss Travel Pass, como nós, tem a tarifa em si já incluída no passe, e paga só a reserva obrigatória de assento: CHF 32 no trecho St. Moritz até Tirano (por volta de R$ 210), ou CHF 36 se fosse a viagem completa desde Chur (cerca de R$ 240). Quem não tem passe algum paga o valor cheio: a viagem inteira de Chur a Tirano sai por 66 francos suíços na classe econômica (cerca de R$ 435) ou 113 francos na primeira classe (por volta de R$ 745), sempre por trecho único, valendo dobrar a conta para quem for e voltar.

O Lago Bianco rouba a cena nesse trecho, um lago artificial cuja cor esbranquiçada vem dos sedimentos carregados pelo derretimento das geleiras vizinhas, quase leitoso sob aquele céu de outono meio encoberto. E é praticamente impossível decidir para onde olhar, com o glaciar Morteratsch, o vale de Domleschg e o Alto Engadin se revezando dos dois lados do trem, cada um guardando seu próprio tom de outono.

Duas horas e meia entre St. Moritz e Tirano, na Itália, subindo até o Passo de Bernina, 2.253 metros, entre glaciares e lagos, e descendo pelo Viaduto Circular de Brusio, curva fechada em espiral que resolve, com pura geometria, o problema de reduzir a inclinação num trecho de encosta muito íngreme.

Em poucas horas, o viajante atravessa um ecossistema inteiro, dos picos nevados ao clima mediterrâneo já perceptível perto da fronteira italiana, com vinhedos e oliveiras surgindo pela janela.

Tirano foi uma das grandes surpresas da viagem

Tirano recebe quem desce dos Alpes Suíços: em pouco tempo, quem vem de trem troca a neve por vinhedos, e o alemão e o romanche da Engadina dão lugar ao italiano nas placas da estação.

O Bernina Express passa literalmente pelas ruas de Tirano, dividindo espaço com carros, bicicletas e pedestres antes de seguir rumo aos Alpes.

Deixamos nossas malas no Hotel e saímos para conhecer Tirano. O primeiro lugar que visitamos nessa cidade pitoresca foi o Santuário da Madonna di Tirano, erguido a partir de 1505 no local onde, segundo a tradição, a Virgem teria aparecido a um morador chamado Mario Omodei no ano anterior, em 1504.

A fachada renascentista, em mármore e pedra local, com seu campanário imponente, já avisa o que vem lá dentro: um interior barroco entalhado com fartura, dominado por um órgão monumental que é considerado uma das grandes peças de arte sacra da Valtellina. Mesmo para quem não é praticante, vale entrar só pela luz que atravessa os vitrais coloridos e ilumina os altares.O acesso ao santuário é gratuito.

Do santuário, uma caminhada curta leva ao centro histórico, onde ruas estreitas e arcadas escondem palácios renascentistas como o Palazzo Salis, residência nobre do século XVII que ainda guarda afrescos originais, móveis de época e um jardim ao estilo italiano. É o tipo de construção que conta, sem precisar de legenda, como Tirano viveu séculos como ponto de passagem entre o mundo suíço e o italiano, e lucrou bem com isso.

Mas talvez a experiência mais reveladora de Tirano não esteja dentro de nenhum prédio, e sim na paisagem ao redor: os vinhedos em terraço que sobem pelas encostas retas dos Alpes Réticos, sustentados por mais de 2.500 quilômetros de muros de pedra seca, técnica reconhecida pela Unesco como patrimônio imaterial.

É dali que nasce o Sforzato di Valtellina, vinho tinto seco feito de uvas nebbiolo (localmente chamadas chiavennasca), considerado o mais nobre da região, e o Valtellina Superiore, que valem uma tarde inteira de degustação para quem tiver tempo.

Da janela do nosso hotel reservado pela Booking vimos a paisagem dos vinhedos em terraço da Valtellina.
Da janela do nosso hotel em Tirano vimos a paisagem dos vinhedos em terraço da Valtellina.

Na mesa, a região da Valtellina é generosa.

Os pizzoccheri, macarrão escuro feito de trigo-sarraceno, cozido com couve e batata e finalizado com manteiga derretida e queijo Bitto ou Casera, são o prato que resume a cozinha camponesa da região. Como entrada, a bresaola, carne bovina curada e fatiada bem fina, é praticamente onipresente nos cardápios locais, e os sciatt, bolinhos fritos de trigo-sarraceno recheados de queijo derretido, são o tipo de comida que ninguém experimenta só uma vez.

Para quem tem só algumas horas entre um trem e outro, a receita ideal é simples: santuário pela manhã, uma volta pelo centro histórico, e um almoço demorado regado a Sforzato, antes de seguir viagem, seja de volta aos Alpes suíços, de ônibus até Lugano, ou rumo a Milão, a cerca de três horas dali de trem.

E no dia seguinte:

De Tirano a Milão

Nesse trajeto, o trem perdeu o glamour do Bernina Express, mas seguiu entregando tudo em paisagem. É a Trenord, operadora regional da Lombardia, que faz o trajeto: cerca de duas horas e meia, direto, sem baldeação, cruzando pouco mais de cem quilômetros entre as montanhas da Valtellina, o Lago de Como e os arredores de Milão.

Não é um trem de alta velocidade, e é exatamente por isso que funciona como fechamento perfeito da viagem: dá tempo de observar os vinhedos em terraço, o rio Adda serpenteando pelo vale e as águas do Lago de Como, o mais profundo da Itália e famoso por sua extraordinária beleza, antes que o horizonte se transforme, aos poucos, na paisagem urbana de Milão.

Não é um trem de alta velocidade, e é exatamente por isso que funciona como fechamento perfeito da viagem: dá tempo de observar os vinhedos em terraço, o rio Adda serpenteando pelo vale e as águas do Lago de Como, o mais profundo da Itália e famoso por sua extraordinária beleza, antes que o horizonte se transforme, aos poucos, na paisagem urbana de Milão.
“Quando escreverem a história de dois amantes felizes, coloquem-nos às margens do Lago de Como.”
Franz Liszt, carta a Louis de Ronchaud, 1837

Um detalhe prático que faz diferença: sentar do lado direito do sentido da viagem garante a melhor vista da Valtellina e do lago nos primeiros quarenta minutos de trajeto, antes que a rota se afaste da margem.

Compramos as passagens na hora mesmo, na estação de Tirano, sem reserva prévia: cerca de 12,50 euros por pessoa. As passagens são vendidas separadamente das do Bernina Express, já que são companhias diferentes (a suíça Rhätische Bahn de um lado, a italiana Trenord do outro), e o trajeto tem saídas praticamente de hora em hora, o que dá liberdade para não amarrar a conexão em cima da hora.

Milão

Milão recebe assim: sem cerimônia, sem aviso prévio, ainda com a poeira dos Alpes na roupa. Depois de onze dias entre neve, geleira e vale alpino, a Estação Central de Milão se apresenta como um soco de realidade, mármore, teto altíssimo, gente andando depressa em todas as direções, uma cidade que segue seu ritmo enquanto a gente ainda estava devagar, processando trens e paisagens.

Para quem chega a Milão pela primeira vez e tem apenas algumas horas antes do voo ou de seguir para o próximo destino, o roteiro pode ser curto e certeiro: comece pelo Duomo, a monumental catedral gótica cuja construção atravessou quase seis séculos e que continua impressionando tanto por dentro quanto por fora. Logo ao lado está a Galleria Vittorio Emanuele II, com sua imensa cúpula de vidro e ferro e as vitrines de grife que ajudam a explicar a relação histórica da cidade com a moda e o luxo.

E, se houver tempo para uma refeição, aproveite para provar uma cotoletta alla milanese, um dos pratos mais tradicionais da cidade. O grande bife de vitela empanado e frito, servido com osso em muitas versões tradicionais, é uma das experiências gastronômicas mais características de Milão. Se ainda sobrar tempo, vale terminar o passeio com um aperitivo em Brera, entre bares e mesas nas calçadas, observando um pouco da cidade como ela realmente funciona depois do expediente.

Doze dias, múltiplos trens e uma dezena de baldeações deixaram uma certeza: cruzar montanhas e vales sobre os trilhos transforma a própria rota no principal destino da viagem.

Tem algo particular na forma como o trem entrega a paisagem. De carro, a estrada exige atenção, e a vista é fatiada entre o trânsito e as curvas. De avião, a beleza vira abstração: tudo fica pequeno demais e rápido demais. Já o trem tem esse privilégio raro de deixar a paisagem se desenrolar devagar, na mesma velocidade do pensamento, sem pedir nada da gente além de estar ali, sentada, contemplando. E talvez não exista estação melhor para perceber isso do que o outono, quando a paisagem muda diante dos olhos e cada trecho percorrido parece diferente do anterior.

É talvez por isso que as viagens de trem ficam na memória de um jeito diferente: elas não são feitas apenas de destinos, mas de trajetos. E o trajeto, quando é bonito o suficiente, vira o próprio destino.

Talvez essa seja a maior lição que um roteiro de trem ensina: vale a pena escolher a viagem mais lenta, mesmo quando existe uma mais rápida disponível. Porque, no fim, o que fica não é apenas o lugar onde a viagem termina, mas as paisagens que se transformaram diante da janela e tudo aquilo que vimos pelo caminho. No outono, talvez mais do que em qualquer outra estação, viajar de trem é também aprender a olhar devagar.

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