Suíça e Itália no outono: doze dias de trem na estação mais bonita da viagem
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Suíça e Itália no outono: doze dias de trem na estação mais bonita da viagem

O que você vai encontrar nesse artigo

Suíça e Itália no outono: Roteiro de doze dias de trem: Existe um instante específico, todo outono, em que a Suíça troca de personalidade. Não é uma data fixa no calendário, é mais parecido com uma decisão coletiva e silenciosa: um dia, entre o fim do verão e o começo de outubro, as vacas, enfeitadas com coroas de flores e sinos gigantes, descem dos pastos de altitude, o volume de turistas nas plataformas de trem cai bastante, e o país inteiro parece soltar o ar que segurou o verão inteiro. Chama-se Désalpe essa descida do gado na Suíça francesa (Alpabzug, na parte alemã do país), e é o tipo de coisa que ninguém anuncia em outdoor. Você só sabe que aconteceu se estiver lá.

Foi isso que buscamos ao longo de doze dias, atravessando a Suíça de trem, de Zurique a Milão, com uma parada em Tirano, no coração da Valtellina, e seguindo pelo trecho ferroviário que acompanha o Lago di Como, um dos cenários mais bonitos do percurso até Milão.

Este texto é as duas coisas: um roteiro de doze dias que funciona, testado quilômetro por quilômetro, e um retrato mais amplo do que o outono desses dois países realmente é, porque reduzir tudo isso a sete cidades, incluindo Tirano e Milão, seria diminuir o tamanho da experiência.

O que muda quando o verão vai embora

Para entender o que o outono desliga, vale lembrar como é o verão nessa região. Entre junho e agosto, a Suíça e esse trecho do norte da Itália que se conecta a ela, com a agitada Milão e a charmosa cidade de Tirano, mostram sua versão mais generosa. São dias longos com luz até as nove da noite, trilhas de alta montanha completamente livres de neve, rios e lagos convidando para nadar e terraços de café lotados até tarde. Do lado italiano, o calor vem pesado, acompanhado de ruas cheias de turistas de passagem e de um cardápio de temporada ainda longe do auge. É a época em que a paisagem alpina se abre por inteiro: os trens panorâmicos da famosa Rota do Bernina cruzam montanhas e geleiras sem restrições de acesso, sem necessidade de roupas pesadas e sem exigência de um plano B por causa do clima.

Mas esse mesmo esplendor tem o seu preço, dos dois lados da fronteira. Trens panorâmicos e regionais ficam completamente lotados entre uma estação e outra, desde a saída de Milão ou na transição em Tirano para subir os Alpes. Filas de até quarenta minutos se formam para embarcar em teleféricos como o do Jungfraujoch, e os hotéis dos pequenos vilarejos ficam com vagas esgotadas meses antes. É um jeito de viajar acelerado, sempre focado na próxima parada, na próxima foto e no próximo trem que não pode ser perdido. Uma região inteira correndo atrás do próprio calendário turístico, tentando encaixar o máximo de pessoas na janela mais curta e quente do ano.

E o outono desliga esse motor, um a um, tanto nos Alpes suíços quanto na descida até a Itália.

3 motivos para trocar o verão suíço pelo outono:

A primeira coisa que ninguém avisa é o silêncio, a sensação de tranquilidade. As mesmas ruas de Lucerna ou do centro de Milão que em julho recebem um fluxo intenso de visitantes ficam, em outubro, largas o suficiente para você parar no meio da Kapellbrücke ou caminhar pela Piazza del Duomo sem pressa de seguir andando. Os preços de hospedagem diminuem em média entre 20% e 40% em relação à alta temporada de verão, tanto nos vilarejos alpinos quanto na Itália. As reservas que em agosto precisam ser feitas com meses de antecedência, como o Jungfraujoch ou o Bernina Express, ficam disponíveis com poucos dias de antecedência. Conseguimos comprar todos os ingressos de última hora, sem nenhuma reserva prévia, e nunca ficamos sem vaga. A pressa que definia o verão simplesmente deixa de existir, e quem viaja em outubro herda uma região inteira rodando no seu próprio ritmo.

A segunda coisa é a cor.

Se o verão é dominado pelo verde intenso dos vales e a primavera traz a neve ainda no topo encontrando o verde e as flores silvestres, e se o inverno cobre tudo de branco, o outono é a única estação em que a paisagem muda de cor de verdade, dia após dia, dos Alpes até as planícies italianas. As árvores de folhas largas viram amarelo-mostarda e cobre queimado, enquanto os pinheiros seguem verde-escuro o ano todo.

Esse contraste, o verde permanente e o dourado que vai mudando ao longo do outono, dá à paisagem uma sensação de camadas, como se dois tempos diferentes coexistissem: as montanhas de pedra, que não mudam nunca, e as folhas, que estão caindo a cada dia.

E a terceira coisa, a que a maioria dos roteiros de verão simplesmente não tem acesso, é a colheita.

Outubro é mês de vindima nos vinhedos do Valais e de Lavaux, na Suíça, assim como nos terraços de parreirais do Valtellina, no lado italiano. É também o tempo da castanha assada em barracas de rua, uma tradição forte na Itália e no Ticino, mas que também encontrei em plena Berna, num cartucho quentinho comprado direto na calçada.

No Valais, a castanha vira brisolée, prato tradicional que combina castanhas assadas com vinho e embutidos locais, um costume que dialoga diretamente com as tábuas de frios e vinhos novos servidas em Tirano e Milão nessa mesma época. Em quase todo café ou restaurante suíço, o outono é sinônimo de vermicelles, a clássica sobremesa de purê de castanha em fios coberta de chantilly. As abóboras dominam as feiras e os cardápios da estação dos dois lados da fronteira, com festivais dedicados a ela, como o Kürbisfest na região de Basileia. Nos vilarejos que no verão nem aparecem no mapa turístico, começam as feiras de queijo novo. É a estação em que Suíça e Itália comem diferente, e comer diferente, nessa região, sempre revela alguma coisa sobre a geografia.

O roteiro pela Suíça e Itália: doze dias, oito cidades, um fio condutor

O roteiro foi organizado para seguir sempre adiante, sem retornar a cidades já visitadas:

  1. 1 noite em Zurique,
  2. 2 noites em Lucerna,
  3. 1 noite em Berna,
  4. 3 noites em Interlaken,
  5. 2 noites em Zermatt,
  6. 1 noite em St. Moritz,
  7. 1 noite em Tirano e
  8. 1 noite em Milão.

Em Interlaken, as três noites consecutivas permitem manter a mesma hospedagem enquanto fazemos os bate-voltas para Lauterbrunnen, Mürren e Jungfraujoch, sem precisar refazer malas no meio da viagem.

A rota acompanha uma progressão pelos Alpes: parte de Zurique, passa por cidades de diferentes altitudes, chega a Zermatt e depois a St. Moritz, no coração das montanhas, e então começa a descida pelo lado sul dos Alpes, atravessando Tirano, já na Itália, até chegar a Milão. O resultado é um percurso linear, pensado para aproveitar os deslocamentos de trem como parte da própria experiência da viagem.

O Swiss Travel Pass cobre praticamente todos os deslocamentos dentro da Suíça: trens, ônibus, barcos e transporte público em mais de 90 cidades, sem precisar comprar um bilhete separado a cada trajeto.

O passe também inclui entrada gratuita em mais de 500 museus pelo país. Entre as montanhas, Rigi, Stanserhorn e Stoos estão incluídas, enquanto outras excursões oferecem descontos de até 50%. No caso do Jungfraujoch, o desconto é menor, por isso vale conferir o benefício específico antes de comprar o passe.

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E cada hotel escolhido tem uma coincidência histórica com a cidade que hospeda: dormir num prédio do século XIV em Zurique ou num hotel que recebeu chefes de Estado em Berna é também escolher lugares que carregam a passagem do tempo. A hospedagem deixa de ser só onde se dorme e vira parte da própria experiência de viagem.

Zurique abre o roteiro não pelos bancos, mas pelas igrejas.

Chegamos a Zurique num voo matinal, sob uma chuva fina que teimava em não parar. Não houve tempo para descanso: deixamos as malas no hotel e saímos a pé mesmo assim, sem guarda-chuva, decididos a atravessar o centro histórico antes que o dia acabasse.

Mesmo sob a garoa fina, a Suíça já se anunciava dourada: o outono não pede licença para ser lindo!

A caminhada nos levou primeiro às margens do rio Limmat, que atravessa o centro histórico de Zurique, onde a garoa desenhava círculos discretos na água.

Depois, seguimos pelas ruas estreitas da cidade velha até chegar à Igreja de São Pedro (St. Peter), uma das construções religiosas mais antigas de Zurique. De longe já se nota sua torre, coroada por um relógio de 8,7 metros de diâmetro, o maior mostrador de relógio de igreja de toda a Europa.

St. Peter ocupa um lugar importante na história da cidade: suas fundações remontam ao século IX, e foi ali que Leo Jud atuou como primeiro pastor da igreja reformada, ou seja, da nova vertente protestante que rompia com a Igreja Católica de Roma. Jud foi uma figura central nos anos iniciais da Reforma em Zurique, o movimento do século XVI que dividiu o cristianismo europeu e deu origem às igrejas protestantes. Amigo de Ulrico Zwingli, o líder religioso que comandou essa ruptura em Zurique, Jud também participou da primeira tradução da Bíblia para o alemão da região.

Depois, seguimos pelas ruas estreitas da cidade velha, até avistarmos as duas torres do Grossmünster, uma das igrejas mais importantes de Zurique, que se destacavam entre os edifícios históricos. Diante delas, a sensação era de estar em uma cidade onde o passado ainda está presente no cotidiano, independentemente da chuva ou do sol.

Grossmünster, com sua fachada de pedra clara sem nenhum adorno excessivo, foi o púlpito de onde Ulrico Zwingli, no século XVI, discursou contra Roma quase ao mesmo tempo que Lutero fazia o mesmo na Alemanha. Não existe nenhuma placa gigante contando isso, e é justamente essa ausência de espetáculo que impressiona: um dos pontos de ruptura da história religiosa europeia, hoje, é só uma igreja bonita numa cidade tranquila, com pingos de chuva escorrendo pela pedra.

A rota segue pela Augustinergasse, com seus balcões de madeira entalhada escurecidos pela umidade, até desembocar, quase sem aviso, na Bahnhofstrasse, onde vitrines discretas, embaçadas pelo vapor da chuva fina, escondem parte do sistema bancário privado mais robusto do planeta.

Na Münsterhof, a maior praça do centro histórico, fica o ponto exato onde Winston Churchill, em 1946, defendeu publicamente uma futura união entre países europeus, ideia que décadas depois viraria a União Europeia, bloco do qual a própria Suíça jamais quis fazer parte.

Paramos para almoçar no Swiss Chuchi, dentro do Hotel Storchen, um dos raros endereços do centro que ainda leva a sério a cozinha suíça tradicional: fondue de queijo servido em panela de cobre, rösti crocante, tudo isso com vista para o Limmat, que sob a garoa ganhava um tom cinza prateado. É o tipo de refeição que ancora o corpo antes de uma tarde inteira de museu, e naquele dia, também aquece contra o friozinho da chuva.

Contamos nossa experiência nesse vídeo, não deixe de assistir:

Depois do almoço, fomos a uma loja da Apple. Não foi acaso: antes mesmo de embarcar, eu já estava de olho num iPhone novo, queria trocar de aparelho havia um tempo, e como a viagem para a Suíça estava próxima, pesquisei por via das dúvidas se valia a pena comprar por lá. A resposta veio na hora: entre os países europeus, a Suíça é justamente onde o iPhone sai mais barato.

É uma informação que contraria a lógica, já que a Suíça carrega a fama de ser um dos lugares mais caros do mundo para se viver ou viajar. Mas a explicação está nos impostos: o país tem uma das cargas tributárias mais baixas da Europa sobre produtos eletrônicos, o que barateia especificamente esse tipo de compra, mesmo com o custo de vida elevado em quase tudo o mais.

Fui até a loja já com a intenção declarada de fechar negócio, mas o modelo que eu queria estava esgotado.

A tarde pertence ao Kunsthaus Zürich, o principal museu de arte de Zurique, onde uma importante coleção de obras de Alberto Giacometti, um dos maiores escultores suíços do século XX, ocupa lugar de destaque.

Dormir no Hotel Storchen, com fachada do século XIV direto sobre o rio Limmat, fecha o dia dentro da própria história que ele contou, com o som da chuva fina ainda batendo na vidraça.

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No dia seguinte, após o café da manhã, seguimos para a estação. De Zurique a Lucerna são 45 a 50 minutos de trem, e a paisagem já anuncia outra Suíça, mais rural, mais dourada.

Assim que descemos na estação, o tempo já tinha virado: a garoa de Zurique tinha dado lugar a um sol generoso, e o dia estava simplesmente lindo. Avistamos o lago logo à frente, com aquele azul que só aparece quando o céu colabora. Caminhamos pela orla até a Jesuitenkirche, com sua fachada barroca em tons claros refletida na água, e seguimos margeando o rio Reuss até a Kapellbrücke.

A Jesuitenkirche, em Lucerna, parece delicada à beira do Reuss, mas sua história revela a força dos jesuítas na formação cultural e religiosa da Suíça católica do século XVII.

A Kapellbrücke, ponte coberta construída em 1333, guarda sob o telhado uma sequência de painéis triangulares que representam episódios da história de Lucerna e da Suíça. É como atravessar um livro suspenso sobre o rio, lendo a história enquanto se caminha.

Vimos também o Löwendenkmal, o Monumento do Leão, esculpido diretamente na rocha e inaugurado em 1821. Mas por que um leão? Porque ele não está ali apenas como símbolo de força: ferido de morte, repousando sobre o escudo com a flor-de-lis da monarquia francesa, o animal representa os Guardas Suíços mortos em Paris, em 1792, durante a defesa do Palácio das Tulherias, residência da família real francesa, atacado pelos revolucionários no início da Revolução Francesa.

Ao lado, a cruz suíça identifica a origem daqueles soldados que haviam deixado seu país para servir à monarquia francesa. É uma cena de derrota transformada em monumento, quase três décadas depois do episódio que homenageia, e talvez por isso seja difícil permanecer diante dela sem baixar a voz.

Um passeio de barco pelo Lago de Lucerna, incluído no Swiss Travel Pass em determinados trajetos, muda novamente a escala da paisagem.

Os Alpes Centrais aparecem ao redor do lago e se refletem na água, enquanto a luz do fim do dia altera lentamente as cores das montanhas. Se for sábado, o roteiro pode incluir também o mercado de produtores da cidade, onde produtos da região ajudam a revelar uma Lucerna que existe para além de suas pontes, igrejas e monumentos.

Viajo bastante e já tive a oportunidade de conhecer lugares extraordinários pelo mundo, mas Lucerna está, sem dúvida, entre as cidades mais bonitas que já visitei. Há algo na combinação entre o lago, as montanhas, a arquitetura histórica e a atmosfera tranquila da cidade que a torna especialmente difícil de esquecer.

Para o almoço, escolhemos o Wirtshaus Galliker, endereço histórico de Lucerna mantido pela mesma família desde 1856. Ali provamos a autêntica Chügelipastete, especialidade local que consiste em uma delicada massa folhada recheada com carne, cogumelos e molho cremoso, resgatando as tradições da antiga cozinha burguesa da região.

Depois do almoço, subimos até a Museggmauer, a muralha medieval que contorna o lado norte do centro histórico de Lucerna.

Construída a partir do final do século XIV, ela chegou a ter trinta torres, das quais nove sobrevivem, praticamente intactas, e quatro podem ser visitadas: Männli, Zyt, Wacht e Schirmer.

Caminhar sobre a muralha, com pouco mais de um metro e meio de espessura, é como atravessar um corredor suspenso entre o passado e o presente da cidade.

Na Zytturm, guarda-se o relógio mais antigo de toda a Suíça Central, instalado em 1535 e que, por tradição, badala um minuto antes de todos os outros relógios de Lucerna.

Vale reservar essa parada para quem visita a cidade entre abril e o início de novembro, período em que a muralha fica aberta ao público; em 2026, o acesso segue livre até 1º de novembro, fechando logo depois para o inverno e reabrindo apenas em abril de 2027.

Não paga nada. A entrada é gratuita, embora alguns relatos mencionem que há um local para contribuições voluntárias destinadas à preservação do monumento.

Frase pronta para incluir no texto:

E o melhor: subir pela muralha e suas torres não custa nada, a entrada é totalmente gratuita, com apenas uma caixinha de doações voluntárias para quem quiser contribuir com a preservação do monumento.

Do alto da muralha de Lucerna, a vista se abre para os telhados da cidade velha, a Altstadt, o Lago de Lucerna e, em dias claros, para os picos do Monte Pilatus ao fundo.

Para dormir, escolhemos o Hotel des Balances, na cidade velha, junto ao rio Reuss. Reserve aqui seu hotel em Lucerna.

Depois de um dia entre pontes medievais, memória revolucionária e montanhas refletidas no lago, Lucerna termina exatamente onde começou: diante da água.

O terceiro dia é de altitude, e Lucerna abre duas portas muito diferentes para os Alpes: o Monte Rigi ou o Monte Pilatus.

Monte Rigi (chamado também de Rigi Kulm): a montanha sobre trilhos

O Monte Rigi, conhecido como a Rainha das Montanhas, pode ser alcançado em uma das combinações mais bonitas do roteiro: barco pelo Lago de Lucerna até Vitznau e, dali, o primeiro trem de cremalheira da Europa, inaugurado em 1871, sobe pela montanha até Rigi Kulm.

A invenção transformou em trajeto ferroviário uma encosta que, até então, parecia pertencer apenas a quem estivesse disposto a subi-la a pé. No alto, a paisagem se abre sobre o Lago de Lucerna, o Lago Zug e os Alpes, em uma experiência que reúne a história da engenharia ferroviária e uma das vistas mais inesquecíveis.

Monte Pilatus: onde a engenharia desafia a montanha

Já o Monte Pilatus conta outra história de engenharia. Sua ferrovia de cremalheira, inaugurada em 1889, continua sendo oficialmente a mais íngreme do mundo em operação. Para vencer uma encosta tão extrema, o engenheiro Eduard Locher desenvolveu um sistema próprio de engrenagem, diferente das cremalheiras convencionais.

No outono, porém, é preciso prestar atenção ao calendário. Em 2026, a cremalheira funciona até 29 de novembro, enquanto o teleférico de Kriens fica fechado para manutenção de 19 de outubro a 27 de novembro. Além disso, o barco entre Lucerna e Alpnachstad opera somente até 18 de outubro. Depois dessa data, o famoso circuito que combina barco, cremalheira e teleférico deixa de funcionar como um percurso contínuo durante o restante da temporada de 2026.

Reserve aqui seu passeio: Lucerna: Teleférico do Monte Pilatus, Trem de cremalheira e Cruzeiro no Lago

De volta a Lucerna no fim da tarde, a cidade muda de ritmo. As fachadas da cidade velha ganham a luz baixa do outono, as mesas começam a se ocupar e o rio Reuss passa a refletir as primeiras luzes. O jantar é uma oportunidade de provar sabores da Suíça Central, entre queijos, carnes e preparações que pertencem à cozinha local. Depois de um dia entre lagos, montanhas e ferrovias históricas, é na escala pequena de Lucerna que o dia termina: caminhando pelas ruas antigas, atravessando novamente a Kapellbrücke e acompanhando o rio até o hotel.

Uma hora de trem separa Lucerna de Berna, e o contraste é imediato: da pitoresca para a solene.

Berna é a única capital nacional do mundo cujo centro histórico permanece quase integralmente medieval, protegido pela UNESCO desde 1983. Caminhar sob as arcadas que cobrem os passeios há séculos, que agora nos protegem contra a chuvinha e o vento de outubro, leva até a Zytglogge, torre que marca as horas desde 1530 com um mecanismo de bonecos que ainda se move exatamente como se movia há quase cinco séculos.

Berna no outono parecia ter sido cuidadosamente pintada: o dourado das árvores, o vermelho das folhas e a arquitetura histórica da cidade criavam uma paisagem cinematográfica.
Muitos visitantes se reúnem diante do Zytglogge, em Berna, para acompanhar, a cada hora, o pequeno espetáculo do seu mecanismo histórico: figuras que se movimentam ao som do relógio, em uma tradição que atravessa séculos.

Essas arcadas, chamadas de Lauben pelos moradores, somam nada menos que seis quilômetros de extensão e são consideradas as mais longas galerias comerciais cobertas de toda a Europa. A origem delas é quase acidental: depois que um incêndio devastador destruiu boa parte da cidade em 1405, Berna foi reconstruída em arenito, e os andares superiores dos prédios passaram a avançar sobre a rua, criando essa espécie de túnel contínuo que hoje abriga lojas, cafés e antigas adegas subterrâneas transformadas em bares.

Foi debaixo dessas mesmas arcadas, décadas depois, que Albert Einstein caminhava rumo ao escritório de patentes onde trabalhava, no mesmo período em que desenvolveu a Teoria da Relatividade, em 1905, morando poucos metros dali.

Passamos pelo Bundeshaus, sede do Parlamento Federal, um dos edifícios que melhor traduzem a ideia de uma Suíça formada pela convivência entre diferentes regiões e tradições. Sua arquitetura e decoração fazem referência à diversidade cultural do país, onde alemão, francês, italiano e romanche são línguas nacionais. Mais do que representar uma identidade única e homogênea, o edifício expressa a construção de uma federação que preserva suas diferenças enquanto compartilha uma mesma estrutura política.

Logo diante do Parlamento está a Bundesplatz, a principal praça política de Berna. No centro, 26 jatos de água representam os 26 cantões suíços, criando uma imagem simples e simbólica da estrutura federal do país: diferentes cantões reunidos em uma mesma Confederação.

A cidade inteira se enrosca numa curva fechada do rio Aare. No verão, perto do Parlamento, moradores entram na água e se deixam levar pela correnteza, descendo o rio com os pertences protegidos em bolsas impermeáveis. De repente, o Aare deixa de ser apenas o rio que contorna Berna e passa a ser também caminho, lazer e parte da vida da cidade.

Bem perto do Palácio Federal, sede do governo suíço, paramos no Bärenpark, o parque dos ursos que dá nome à própria cidade.

Foi ali que ficamos sabendo da lenda: o duque Berchtold V de Zähringen, fundador de Berna em 1191, prometeu batizar a futura cidade com o nome do primeiro animal que encontrasse numa caçada na floresta que seria derrubada para dar lugar às construções. O animal foi um urso, Bär em alemão, e assim nasceu o nome Bärn, hoje Berna. Desde então, o urso virou o símbolo oficial da cidade, estampado no brasão e na bandeira, e ursos de verdade vivem ali desde pelo menos 1513, quando soldados berneses voltaram de uma batalha trazendo um filhote como troféu de guerra.

Não somos entusiastas de animais em cativeiro, por mais que o espaço atual, às margens do rio Aare, seja bem mais amplo e humanizado do que os antigos fossos de pedra que existiram ali por séculos. Ainda assim, é impossível contar a história de Berna sem passar por esse detalhe: poucas capitais do mundo carregam no próprio nome a lembrança de um animal, e menos ainda mantêm essa relação viva há mais de oitocentos anos.

Procuramos os moradores atuais do parque pelas margens do rio, mas eles preferiram não aparecer, escondidos entre as árvores ou talvez apenas cochilando fora de vista. Ficou a curiosidade satisfeita, mesmo sem o encontro.

A poucos passos dali, ergue-se a Berner Münster, a Catedral de Berna, maior igreja gótica de toda a Suíça.

Sua construção começou em 1421 e se arrastou por mais de quatro séculos, atrasada por pragas, guerras e falta de recursos, até que a torre finalmente ficasse pronta em 1893, alcançando os atuais 101 metros de altura, recorde entre os templos do país.

No portal principal, mais de duzentas figuras esculpidas em pedra retratam o Juízo Final, com o Paraíso de um lado e o Inferno do outro, um lembrete silencioso de que a fé, aqui, sempre foi levada a sério. Subir os 344 degraus até o topo da torre é trocar a arquitetura gótica pela vista dos Alpes Berneses, com o Eiger e o Jungfrau recortando o horizonte, e o rio Aare serpenteando lá embaixo como se também quisesse admirar a cidade que abraça.

E o jantar daquela noite não foi em um restaurante. Fomos para a casa de nossos primos. A prima de Fernando se casou com um suíço e hoje vive em Berna com ele, com 2 filhos. A mesa daquela noite acabou reunindo duas histórias que, à primeira vista, parecem distantes, mas que a vida tratou de aproximar.

Ele morou um tempo no Brasil com a esposa e os filhos, e guarda do país uma relação que vai muito além das lembranças de uma temporada vivida longe de casa. Falou do Brasil com saudade, reconheceu nos nossos hábitos pequenos gestos que ainda lhe são familiares e se identificou com a nossa maneira de conversar, de prolongar a refeição e de transformar o jantar em tempo de convivência. Para a família, estar conosco naquela noite parecia também uma forma de reencontrar um pedaço do país que deixou para trás.

Foi uma daquelas noites que não cabem em um roteiro turístico. Em torno da mesa, entre histórias da Suíça e lembranças do Brasil, a viagem ganhou uma dimensão diferente. Pela primeira vez naquele percurso, não estávamos apenas conhecendo um país: estávamos entrando, ainda que por algumas horas, na vida de quem escolheu fazer dele sua casa.

Uma curiosidade que Fernando e eu adoramos descobrir por lá: o refrigerante suíço Rivella, presente em praticamente todas as mesas do país, é feito à base de soro de leite, o subproduto líquido que sobra da produção de queijo, normalmente descartado pela indústria.

A receita, criada em 1952, é guardada a sete chaves pela família fundadora até hoje. E apesar da origem improvável, o sabor não lembra leite em nada: é uma bebida gaseificada e levemente herbal, que os suíços tomam no dia a dia como quem bebe um refrigerante qualquer.

E no dia seguinte, fomos pra Interlaken.

Cinquenta minutos depois, Interlaken abre a porta real dos Alpes berneses.

A cidade existe, historicamente, como corredor entre 2 lagos (Thun e Brienz), e cumpre até hoje essa função de base. Um passeio de barco pelo Brienz revela aquele azul-turquesa que parece editado digitalmente, mas é resultado de farinha glacial, partículas de rocha moída pelo gelo que ficam em suspensão na água e refletem a luz de um jeito incrivelmente belo.

Saímos do trem, deixamos as malas no hotel e já fomos para Lauterbrunnen.

Lauterbrunnen é um vilarejo e concentra 72 quedas d’água diferentes num único vale esculpido em formato de U pelo gelo.

As paredes quase verticais de rocha, cheias de cachoeiras, emolduram um vale plano e verde, com chalés de madeira espalhados entre pastagens que em outubro já viravam um mosaico de amarelos e ferrugens, contrastando com o cinza da pedra e o branco das primeiras neves nos picos ao fundo.

Foi por esse vale que cruzamos com dezenas de vacas descendo das pastagens de altitude: a mesma descida do gado que já tínhamos visto de longe, agora batizada localmente de Alpabzug, já que aqui a Suíça fala alemão.

É o ritual anual que marca o fim do verão alpino, quando o gado retorna aos estábulos do vale após meses inteiros pastando a mais de dois mil metros de altitude. Segundo os produtores locais, são justamente as ervas silvestres dessas pastagens de montanha que dão aos queijos alpinos suíços seu sabor tão típico. O som dos chocalhos ecoando pelas paredes de rocha antes mesmo de avistarmos o rebanho tornou aquele momento tão inesquecível quanto qualquer cachoeira do vale.

Cachoeiras despencando dos paredões, picos cobertos de neve, chalés, vacas e as cores do outono compunham a paisagem de Lauterbrunnen. Um daqueles lugares que parecem reunir, em um único cenário, tudo o que imaginamos quando pensamos na Suíça. Sem dúvida, um dos lugares mais lindos que já visitei na minha vida.

Vimos as vaquinhas pelo caminho até a famosa Staubbach Falls, uma cachoeira que desce quase 300 metros dos paredões rochosos bem no meio do vilarejo de Lauterbrunnen. Ela não é a mais alta da Suíça, esse título fica com outras quedas da região, mas talvez seja a mais fascinante: o volume de água se transforma em névoa antes de tocar o chão do vale, criando uma espécie de nuvem que balança ao vento.

A paisagem daqui impressionou até o escritor alemão Goethe, que visitou a região no século XVIII e se inspirou na Staubbach Falls para escrever um de seus poemas. Mais de um século depois, a paisagem alpina de Lauterbrunnen também seria associada a Valfenda, o refúgio dos elfos criado por J. R. R. Tolkien em O Senhor dos Anéis.

Vale a pena subir pela trilha que leva à galeria atrás da Staubbach Falls. O caminho, com escadas e um trecho de túnel escavado na rocha, leva a um ponto de observação de onde é possível ver a cachoeira de trás, em meio à névoa formada pela água. A caminhada é curta, gratuita e exige apenas um pouco de atenção, já que o piso pode ficar úmido e escorregadio. A galeria costuma funcionar de maio a outubro.

Foi nosso primo, que vive na Suíça, quem deu a dica de conhecer Mürren partindo de Lauterbrunnen.

Como sempre gostamos de seguir sugestões de quem mora no lugar, resolvemos conferir. De lá, pegamos um teleférico até Mürren, vilarejo suspenso sobre um penhasco sem nenhum acesso rodoviário direto, onde o silêncio tem uma qualidade específica: só vento e, ao longe, algum sino de vaca.

Todo esse trajeto está incluído no Swiss Travel Pass, sem custo adicional. Quem quiser esticar segue até Birg, a 2.677 metros, de onde se vê de frente o trio Eiger, Mönch e Jungfrau alinhado como se tivesse sido posicionado ali de propósito; nesse trecho final, o passe já não cobre a viagem por completo, mas garante 50% de desconto no bilhete complementar.

À noite, saímos para caminhar sem pressa por Interlaken.

Depois de um dia explorando as paisagens ao redor, a cidade parecia ganhar outro ritmo, mais tranquilo e intimista. As vitrines iluminadas, os cafés e o movimento discreto de quem ainda passeava pelas ruas contrastavam com a silhueta escura dos Alpes ao fundo.

Passamos pela Höhematte, o grande parque central de Interlaken, que durante o dia recebe os parapentes que descem das montanhas e, à noite, se transforma em um espaço silencioso, de onde ainda se pode apreciar a grandiosidade da paisagem alpina. Ali, durante o dia, entre o gramado bem cuidado e os hotéis elegantes ao redor, cruzamos com vacas pastando tranquilamente, como se a fronteira entre cidade e alpe simplesmente não existisse em Interlaken.

Para o jantar da primeira noite, escolhemos o Restaurant Schuh, uma tradicional confeitaria e casa de chá cuja história remonta a 1818, localizada no centro de Interlaken. Entre as especialidades da casa está a Schuh-Torte, um bolo de chocolate que se tornou uma das marcas da confeitaria.

No dia seguinte, embarcamos rumo ao Jungfraujoch, a estação ferroviária mais alta da Europa, apelidada de “Topo da Europa” por ficar encravada a 3.454 metros de altitude, entre os picos do Eiger e do Mönch.

De Interlaken, seguimos de trem até Grindelwald e, de lá, embarcamos no Eiger Express, um moderno teleférico que sobrevoa o vale até a estação de Eigergletscher, a 2.320 metros de altitude.

O trecho final é feito no tradicional trem de cremalheira, com trilhos dentados que ajudam o trem a vencer a forte subida pela montanha. A ferrovia atravessa o interior do Eiger e do Mönch, por um túnel escavado diretamente na rocha, até chegar ao Jungfraujoch, a 3.454 metros de altitude, onde está a estação ferroviária mais alta da Europa. A ferrovia foi inaugurada em 1912, depois de anos de obras para abrir caminho pelas montanhas.

Lá em cima, o horizonte se abre para um cenário de gelo, neve e grandes picos alpinos. Um dos destaques é o Sphinx, observatório e estação de pesquisa científica, onde são realizados estudos de meteorologia, radiação, raios cósmicos e outros fenômenos.

As áreas de pesquisa são restritas aos cientistas, mas a plataforma panorâmica é aberta aos visitantes e pode ser alcançada por um elevador que sobe mais de 100 metros em poucos segundos.

Em dias de céu aberto, a vista alcança o glaciar Aletsch, o maior dos Alpes, cercado por picos que ultrapassam os 4.000 metros. Mas essa paisagem monumental também revela uma mudança preocupante: segundo dados do monitoramento suíço, esse glaciar recuou mais de 1 quilômetro desde 1980, além de ter perdido espessura. É uma lembrança impressionante de que até essas paisagens aparentemente eternas estão sendo transformadas pelo aquecimento do planeta.

Vale explorar também o Palácio de Gelo, uma sequência de túneis esculpidos direto no glaciar na década de 1930, com esculturas de animais talhadas no gelo, e o Plateau, uma área externa aberta que permite caminhar sobre a neve eterna e fotografar de perto o cenário alpino.

Pegamos, porém, um dia de tempo muito fechado, com neblina cobrindo boa parte da vista dos picos. Fica a dica para quem for: se tiver flexibilidade no roteiro, vale a pena checar a previsão do tempo antes de decidir o dia da subida, porque a vista lá de cima, quando o céu está aberto, é um dos pontos altos (literalmente) de qualquer viagem à Suíça.

À tardinha, de volta a Interlaken, subimos de funicular até o Harder Kulm para assistir ao pôr do sol.

A Suíça pode ser conhecida pela tecnologia, pelos trens pontuais e pela infraestrutura impecável, mas encontrar vacas pastando tranquilamente no principal parque urbano de Interlaken mostra uma outra faceta do país. Quem imaginaria encontrar esse cenário tão rural no coração de uma das cidades mais turísticas da Suíça? Talvez seja justamente essa mistura entre modernidade e tradição que torne o país tão especial.

Subimos pela Harderbahn, um tradicional funicular que percorre o trajeto até o Harder Kulm em cerca de dez minutos, superando um desnível de mais de 750 metros até chegar aos 1.322 metros de altitude. A própria subida já revela belas paisagens, mas é lá em cima que o cenário realmente impressiona.

Harderbahn, um tradicional funicular que percorre o trajeto até o Harder Kulm.

Seguimos até o Two Lakes Bridge, uma plataforma panorâmica que parece suspensa sobre a montanha. De um lado está o Lago Thun, do outro o Lago Brienz, e, ao fundo, aparecem os imponentes Eiger, Mönch e Jungfrau. A vista ajuda a entender, de forma muito clara, por que Interlaken recebeu esse nome: a cidade está situada entre dois lagos.

À medida que o sol desaparecia atrás dos Alpes, Interlaken começava a acender suas luzes lá embaixo, e a paisagem mudava completamente. Ficamos ali vendo o dia dar lugar à noite, com os lagos escurecendo aos poucos e a cidade ganhando novos contornos.

O local também conta com um restaurante panorâmico, onde jantamos uma deliciosa raclette, além de um pequeno parque para crianças. Mas, para mim, o grande motivo para subir é mesmo ficar diante daquela paisagem, especialmente no fim da tarde, quando a luz do pôr do sol começa a mudar as cores das montanhas. Uma informação útil: o Swiss Travel Pass não dá gratuidade no funicular, mas oferece desconto de até 50% em determinadas excursões de montanha, incluindo o Harder Kulm.

Interlaken foi o lugar onde a Suíça pareceu reunir tudo o que viemos buscar: lagos de águas cristalinas, montanhas imponentes, vilarejos alpinos, vacas nos campos e uma natureza grandiosa convivendo com uma cidade charmosa e cheia de vida. Saímos com a sensação de que alguns lugares, além de serem bonitos, são necessários.

E no dia seguinte, fomos pra Zermatt.

Zermatt, sem carros desde o início do século XX, é a vila onde o Matterhorn domina literalmente qualquer ângulo de visão.

Entre duas horas e meia e quase três de trem separam Interlaken de Zermatt. Na nossa viagem, porém, o percurso não foi totalmente sobre trilhos: em outubro de 2025, parte da linha entre Visp e Täsch estava fechada para obras programadas, e tivemos que fazer esse trecho de ônibus de substituição. Em 2026, as obras previstas são diferentes, com interrupções noturnas entre Täsch e Zermatt em determinados dias até 9 de outubro.

Chegar a Zermatt foi como atravessar uma fronteira entre estações: o outono ficou para trás e, de repente, tudo era branco e coberto de neve.
A mudança da vegetação e as montanhas branquinhas pareciam anunciar que o inverno já havia chegado por ali, criando uma paisagem tão impressionante que dava vontade de parar o tempo e simplesmente ficar olhando.

Zermatt, no cantão do Valais, é a porta de entrada para o Matterhorn, o famoso pico em forma de pirâmide que se tornou um dos grandes símbolos dos Alpes. Sua silhueta quase perfeita despertou o interesse dos alpinistas desde o século XIX. A primeira conquista do cume aconteceu em 1865, mas terminou em tragédia: quatro dos sete integrantes da expedição morreram durante a descida.

O vilarejo tem o charme típico dos destinos alpinos, com chalés de madeira, hotéis, lojas e restaurantes espalhados pelas ruas. No inverno, Zermatt se transforma em um dos grandes destinos de esqui da Suíça, enquanto o verão atrai quem vem em busca das trilhas e das montanhas. No outono, quando estivemos lá, encontramos um ritmo bem mais tranquilo, com menos movimento nas ruas.

Muitos hotéis têm vista para o Matterhorn. Ficamos no Hotel Parnass, que possui quartos com vista direta para a montanha, e acordar com aquela paisagem era, por si só, uma experiência.

Expectativa da vista da nossa janela, foto retirada da Booking

Nas montanhas acima do vilarejo, mesmo em outubro, havia neve suficiente para caminhadas em algumas áreas. O problema é que, nos dois dias em que ficamos em Zermatt, o Matterhorn simplesmente não apareceu. Eu poderia ter ficado frustrada, mas aconteceu algo que compensou completamente: pela primeira vez na vida, vi neve cair. E essa foi uma daquelas experiências que nenhuma previsão de viagem conseguiria garantir.

Realidade da vista da nossa janela em Zermatt.

À noite, fomos ao Brown Cow Pub, um dos lugares mais descontraídos de Zermatt. Localizado no centro do vilarejo, o pub tem um ambiente informal e movimentado, com madeira, cervejas e aquela atmosfera típica de quem acabou de voltar das montanhas. Foi uma escolha mais despretensiosa para o jantar, perfeita para encerrar o dia sem cerimônia.

No nono dia, subimos ao Gornergrat, um dos principais mirantes dos Alpes, localizado a 3.089 metros de altitude.

O acesso é feito por um trem de cremalheira que parte de Zermatt e percorre a montanha em meia hora. Em dias de boa visibilidade, do alto é possível avistar cerca de 30 picos com mais de 4.000 metros, além de várias geleiras.

Nossa esperança era finalmente ver o Matterhorn, que havia se escondido atrás das nuvens durante toda a nossa estadia em Zermatt. Mas, mais uma vez, não tivemos sorte. A montanha continuava completamente encoberta.

Disseram que o Matterhorn estava bem ali. A gente só não descobriu se era para a direita, para a esquerda ou se ele tirou o dia de folga.

Foi então que entramos no ZOOOM the Matterhorn, uma experiência multimídia instalada no próprio Gornergrat, com periscópios que aproximam a imagem da montanha, uma sessão de cinema 3D e um voo virtual de parapente. Mesmo com o tempo fechado, conseguimos conhecer o Matterhorn de perto. A entrada está incluída no bilhete de ida e volta do Gornergrat, e quem tem o Swiss Travel Pass paga apenas metade do valor do trem.

Foi curioso: infelizmente não conseguimos ver o Matterhorn com nossos próprios olhos, mas acabamos conhecendo a montanha de uma maneira completamente diferente. E talvez seja essa a graça de viajar: às vezes, o que não acontece como planejado acaba criando uma lembrança ainda mais inesperada.

No topo do Gornergrat, a 3.100 metros de altitude, além da capela onde ainda se celebra missa aos domingos, funcionam o Kulmhotel Gornergrat, o hotel mais alto dos Alpes suíços, e um shopping center considerado o mais alto da Europa, com lojas de relógios, canivetes e chocolates suíços.

No dia seguinte, encaramos o trecho mais longo da viagem: de Zermatt a Saint Moritz.

O trajeto é justamente o percurso clássico do Glacier Express, um dos trens panorâmicos mais famosos da Suíça. Só que, por viajarmos em outubro, esbarramos numa particularidade do calendário: o trem entra em pausa anual de manutenção entre 11 de outubro e 4 de dezembro, e não estava em operação.

A solução foi fazer o mesmo trajeto de ônibus, opção oferecida pela própria operadora nesse período. Achamos que perderíamos a graça da viagem, mas nos enganamos: a paisagem dos Alpes, com suas montanhas nevadas e vilarejos isolados, continuou igualmente deslumbrante, e provou que, na Suíça, até o plano B costuma ser lindo.

Vale lembrar que, quando o Glacier Express está em operação, mesmo quem tem o Swiss Travel Pass precisa pagar uma taxa extra de reserva obrigatória para embarcar. Como fizemos o trecho de ônibus e trens locais durante a pausa de manutenção do trem panorâmico, não pagamos nada a mais: tudo já estava incluído no passe.

ao Glacier Express, autodenominado, com orgulho, o trem expresso mais lento do mundo: oito horas entre Zermatt e St. Moritz. A lentidão é o argumento, não o defeito: 291 pontes e 91 túneis construídos entre 1880 e 1930, o ponto mais alto no Passo Oberalp a 2.033 metros, e o trecho mais espetacular na Garganta do Reno, apelidada informalmente de Grand Canyon Suíço. St. Moritz recebe o trem já de noite, cidade que cultiva identidade de capital dos esportes alpinos desde 1864, quando um hoteleiro local apostou, contra a lógica da época, que ingleses topariam passar o inverno na neve por prazer, não por necessidade climática. A aposta funcionou e nunca mais parou de funcionar. O jantar é na Chesa Veglia, casa de fazenda engadina do século XVII reconvertida em restaurante, com tetos baixos de madeira entalhada e uma lareira que arde desde antes de St. Moritz existir como destino turístico. Dorme-se no Kulm Hotel St. Moritz, berço declarado desse turismo de inverno moderno.

O último dia fecha com o Bernina Express, Patrimônio Mundial da UNESCO pela engenharia da linha construída entre 1906 e 1910. Quatro horas e meia entre St. Moritz e Tirano, na Itália, subindo até o Passo de Bernina, 2.253 metros, entre glaciares e lagos, e descendo pelo Viaduto Circular de Brusio, curva fechada em espiral que resolve, com pura geometria, o problema de reduzir a inclinação num trecho de encosta muito íngreme. Em quatro horas e meia, o viajante atravessa um ecossistema inteiro, dos picos nevados ao clima mediterrâneo já perceptível perto da fronteira italiana, com vinhedos e oliveiras surgindo pela janela. De Tirano, três horas de conexão terrestre levam a Milão.

Quando desembarquei em Tirano, percebi que a viagem, na verdade, ainda não tinha terminado. Os dez dias pelos Alpes tinham chegado ao fim, mas alguma coisa continuava em movimento, do jeito que o próprio trem continuava descendo a serra minutos depois de eu já ter descido dele. Pela primeira vez numa viagem, senti que aquele percurso não ia caber só na memória, nem só nas fotos que eu tinha guardado. Precisava virar outra coisa. Voltei para casa com um romance inteiro ocupando a cabeça, ambientado na mesma rota que eu tinha acabado de atravessar de trem, entre o mesmo gelo e a mesma queda brusca até a Itália. Meses depois, esse romance tinha título e estava pronto: Na Rota do Bernina.

O outono que o roteiro clássico não alcança

Um roteiro de dez dias, por mais bem desenhado que seja, cobre uma fatia do país. E a Suíça no outono guarda experiências igualmente fortes fora desse eixo Zurique-St. Moritz, espalhadas por regiões que raramente entram em roteiros de primeira viagem, mas que fazem toda a diferença para quem quer entender a estação, não só atravessá-la.

Genebra e o Lago Léman vivem, entre setembro e outubro, um outono mais suave que o dos Alpes, por causa do efeito termorregulador do próprio lago. A Jet d’Eau continua ativa, e a Promenade du Lac, sem as multidões de julho, fica livre para caminhadas longas com os Alpes já nevados do outro lado da água, um contraste que só existe nessa janela específica do ano.

Montreux e Vevey, na chamada Riviera Suíça, entregam talvez o outono mais fotogênico do país inteiro, mas por um motivo que pouca gente sabe explorar: os vinhedos em terraço de Lavaux, Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2007, viram um mosaico de amarelo e vermelho sobre oitocentos e trinta hectares de socalcos construídos à mão por monges a partir do século XI. O Lavaux Express, um trenzinho aberto que circula entre as vinhas até outubro, atravessa esse mosaico devagar o suficiente para cada folha ser notada individualmente. Caminhar de Grandvaux até Cully, cerca de duas horas e meia entre vielas medievais e parreiras já coloridas, é um dos programas de outono mais subestimados de toda a Suíça francesa.

Gruyères, cidade murada famosa pelo queijo homônimo, tem no outono a temporada oficial da produção do queijo de alpage, aquele feito ainda nos pastos de altitude antes do gado descer para o inverno, um processo que se encerra justamente com a Désalpe, quando as vacas enfeitadas descem em procissão pelas ruas de vilarejos como Charmey e Château-d’Œx, entre música tradicional e feiras de artesanato. É uma das poucas tradições rurais europeias que sobreviveram intactas ao turismo de massa, simplesmente porque acontece rápido demais, e cedo demais na estação, para caber num roteiro de verão.

No Ticino, a região de língua italiana no sul do país, outubro é sinônimo de castanha e de vindima do Merlot local. Pequenas tavernas de pedra chamadas grotti abrem as portas para castanhas assadas na hora, polenta e vinho novo, um costume que atravessa gerações e que faz o visitante entender, de forma quase gastronômica, por que essa região sempre se sentiu culturalmente mais próxima da Itália do que do resto da Suíça.

Em Appenzell, no nordeste do país, o outono coincide com o Alpabzug, versão local da descida do gado, celebrada com trajes tradicionais bordados à mão e queijos artesanais que raramente saem da própria região. É a Suíça mais rural e menos fotografada, mas talvez a que preserve com mais fidelidade um modo de vida que, em outros cantões, já foi parcialmente turistificado.

E de volta ao eixo central do roteiro, um detalhe que vale reforçar: as Rhine Falls, em Schaffhausen, embora tenham apenas 23 metros de altura, são a cachoeira de maior vazão de toda a Europa, chegando a 600 metros cúbicos por segundo no fim do verão, um volume que em outubro, já reduzido pela estação mais seca, ainda impressiona pelo simples barulho, audível antes mesmo de a queda aparecer.

O que fica, no fim

Dez dias de trem, mais os desvios que vieram depois, deixaram uma certeza que eu não tinha ao desembarcar em Zurique: a Suíça que se vende ao mundo, a dos relógios, do chocolate e das paisagens de calendário, é real, mas é só a superfície mais fácil de fotografar. Por baixo dela existe um país que decidiu, há séculos, não se apressar. Que preferiu construir trens lentos em vez de rápidos, manter vilarejos inteiros fechados para carros, preservar arcadas medievais em vez de alargá-las para mais tráfego, e continuar descendo o gado dos Alpes em procissão, com flores e sinos, mesmo sem nenhuma câmera de turista por perto na maior parte das vezes.

Não existe estação em que essa aposta no tempo bem gasto fique mais evidente do que no outono, quando o verão de trens lotados e reservas disputadas dá lugar a um país que finalmente pode ser aquilo que sempre quis ser: lento, deliberado, sem pressa nenhuma de provar nada a ninguém. O próprio calendário da natureza, com suas folhas caindo devagar, uma a uma, parece concordar com essa filosofia. Viajar pela Suíça em outubro não é ver um país bonito ficar mais bonito ainda. É ver um país que já sabia, o tempo todo, o valor de desacelerar, finalmente parar de esconder isso.

Algumas viagens terminam no instante em que o avião pousa de volta em casa. Outras continuam vivendo, bem depois disso, naquilo que a gente é capaz de criar a partir delas. A Suíça, para mim, foi da segunda categoria: um roteiro de dez dias que virou, sem que eu planejasse, um romance inteiro. E talvez seja essa a prova mais honesta de que vale a pena viajar para lá no outono, não a paisagem, não o trem, não o hotel centenário, mas o fato de que a viagem, terminada a última bagagem desfeita, ainda não tinha terminado.

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