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Um dia na Bienal de Arte de Veneza – 2019

“Eu não entendo nada sobre arte”. Essa frase é clássica. E esse desabafo não é falta de inteligência ou de cultura. Mas, afinal o que é entender de arte? É saber memorizar o nome das principais escolas artísticas, ou dos movimentos, ou dos principais pintores e os respectivos nomes dos quadros? Acredito que não tenha uma receita para gostar de arte: ou você gosta ou não, simples assim. Pra mim, o principal em uma obra é quando eu olho pra ela e sinto um contentamento. Seja porque ela me despertou curiosidade, ou inquietação, ou até mesmo horror. A arte tem que ser pra mim igual aquela música do Arnaldo Antunes. “Qualquer coisa que se sinta…”. Ah, e por mais que eu adore história e passado, é muito bacana também ver uma obra de arte cosmopolita, que dialogue com os tempos atuais.

Letreiro na porta do Pavilhão da Itália. Será que a gente pode considerar o próprio Letreiro um produto artístico?

Depois de escrever isso me sinto um pouco mais confortável em contar sobre minha primeira vez visitando uma Bienal de Arte, sem querer parecer entendida, nem aprofundar muito no assunto.

Impossível não falar também sobre o projeto Dynamic Encounters, do experiente Charles Watson, junto com a empresa Sermapi turismo. Nós não estávamos no grupo, mas minha sogra sim, então, estivemos um pouco próximos das atividades e víamos o quanto a equipe era séria e competente.

Esse grupo, encabeçado pelo Charles Watson mergulhou no mundo da arte por dez dias e visitaram várias cidades por ali. Charles é professor e palestrante na Escola de Artes Visuais do Parque Lage e há anos organiza workshops com viagens sobre o assunto.

Pelos canais, chegando na Bienal de Artes de Veneza

Sobre a Bienal

(em italiano: Biennale di Venezia)

É uma exposição Internacional de arte realizada de dois em dois anos, desde 1895. A Bienal organiza exposições multidisciplinares divididas em setores: Arquitetura, Artes Visuais, Cinema, Dança, Música e Teatro.

Esse ano (2019), a 58ª Bienal das Artes de Veneza começou no dia 11 de maio e estará aberta ao público até o dia 24 de novembro (corre que ainda dá tempo de vir!), com vários países representados através de esculturas, pinturas e instalações. Essa é a primeira vez que o curador da Bienal de Veneza escolheu trazer apenas artistas ainda vivos.

“Que você viva em tempos interessantes”, o curador da Bienal, o americano Ralph Rugoff, convidou cerca de 80 artistas para dar sua visão dos tempos atuais.

A Bienal desse ano foi intitulada de “May You Live In Interesting Times”, esse título é um provérbio chinês e faz referência aos tempos que estamos vivendo hoje: a reflexão do quanto que as fake news têm efeitos reais.

Esse ano o perfil dos artistas é mais jovem, com diferentes etnias, gêneros e pontos de vista. Ao menos 50% dos artistas, são mulheres.

O Brasil está bem representado pela dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, com a Swinguerra.

Nosso roteiro

Viemos do Lido bem cedo, pegamos um Vaporetto e descemos na estação Giardinni.

Saindo do Lido di Venezia de Vaporetto

As obras estão divididas basicamente em dois locais : Arsenale (uma base naval com vários estaleiros que teve papel fundamental na construção do poderio naval da República de Veneza, no séc. XII) e Giardini um arborizado parque, todos de fácil acesso pelo Vaporetto.

Belo lindo bairro de Giardini

Apesar de termos preferido começar pelas obras localizadas no Arsenale, descemos em Giardini, uma estação de Vaporetto antes, para caminhar um pouco. Mas os dois locais da Bienal estão servidos de transporte público.

E por aqui vimos a famosa instalação sobre o naufrágio de navio com imigrantes no Mediterrâneo.

“Barca Nostra”, do artista suíço Cristoph Buchel. Fragmentos do maior naufrágio no Mediterrâneo

Esse navio pesqueiro, permanecerá aqui para relembrar e chamar a atenção sobre a imigração. Foi a maior tragédia do Mediterrâneo, ocorrido em abril de 2015, onde cerca de 800 imigrantes morreram no Canal da Sicília. É fato notório que imigração é um assunto atual e bastante delicado em todo o mundo, principalmente na Europa.

É uma homenagem à todos que imigram, fugindo de sua pátria em busca de sobrevivência.

“Os restos foram instalados em um lugar calmo, longe do barulho, um convite ao silêncio e à reflexão”, explicou o presidente da Bienal, Paolo Baratta aos jornalistas, durante a abertura.

O artista precisou solicitar autorização do Ministério da Defesa italiano, do Comitê que representa as vítimas, e várias autoridades sicilianas, para expô-los por um ano aqui. E quando a Bienal acabar esses destroços retornarão à Sicília para fazer parte do “Jardim da Memória”, um monumento coletivo sobre a migração.

Vimos também outra obra antenada às mazelas da contemporaneidade.

O trabalho da artista do México Teresa Margolles, sobre a violência e o narcotráfico em seu país gera mal estar e sentimentos de impotência.

Muro “Ciudad Juarez”, de Teresa Margolles, é mais uma obra a abordar o tema da imigração.

A artista, que nessa Bienal recebeu menção especial pela obra, está expondo um dos muros de cimento com arame farpado, em Ciudad Juárez. Esse muro é de uma escola, e em seus buracos quatro pessoas foram baleadas. Impossível não pensar no “muro do Trump”, e sobre os imigrantes.

Outra instalação que nos chamou a atenção foi uma chamada 3X3X6, Instalação de mídia mista do artista Taiwanês Shu Lea Cheang

Eu, Cristina e Fernando sendo “pegos” pelas câmeras que tudo vê e tudo julga.

Uma câmera nos identifica e imediatamente nos rotula, mostrando nosso nível de periculosidade, e se estamos de acordo com o que a sociedade define o que é certo. E aqui é impossível não refletir sobre o crescimento da tecnologia e técnicas de vigilância na China e outros países.

E o tema racismo também não ficou de fora.

O vencedor do Leão de Ouro foi para o artista e cineasta americano Arthur Jaffa, que aqui no Arsenale apresentou uma instalação com rodas enormes acorrentadas, e no Giardini levou um vídeo “The White Album” (2018), que apresenta imagens do cotidiano de diferenças racistas.

Roda Presa- instalação de Arthur Jaffa na Bienal de Veneza 2019

E Assim que chegamos no Giardini, logo na entrada, fomos surpreendido por uma cerração. A obra é de Lara Favaretto, chamada “Thinking Head”, e esse evento à princípio me preocupou e me fez pensar se aquilo era neblina, fumaça de fogo, ou uma obra de arte.

Impossível passar despercebida também sobre a próxima arte. Uma ponte gigante de mãos dadas nos reflete à união dos povos. Cada par de mão significa os valores mundialmente reconhecidos como amizade, fé, ajuda, sabedoria, esperança e é claro, o amor. A idéia é superar as diferenças e buscar um mundo mais tolerante. Obra necessária, em plena cidade das pontes. O que me deixou um pouco desconfortável é porque só mãos brancas? Enfim, não é minha intenção criticar nenhum gênio das artes.

Building bridges’, instalação do Italiano Lorenzo Quinn, na qual seis pares de braços se tocam sobre um canal no Arsenale

Então continuamos explorando a exposição

Obra da artista sul-coreana Anicka Yi
Placa com detalhes da obra
Entrada do Pavilhão de Gana
Obra do artista romeno Andra Ursutana

A dupla Sun Yuan e Peng Yu exibiu a obra “Can’t Help Myself” no Giardini, com um aparelho limpando “sangue” em movimentos quase humanos.

Já no Arsenale, essa mesma dupla apresenta “Dear”, uma instalação com uma cadeira similar à do Memorial de Abraham Lincoln, em Washington, nos Estados Unidos, onde uma fina mangueira solta uma pressão de ar girando numa espécie de dança doida e violenta.

Pela Bienal – Minha sogra Cristina fotografando no pavilhão de Gana

Veneza é uma cidade que está sofrendo com o turismo em massa (e esse assunto já foi abordado aqui no Blog).

Recado para os turistas, refugiados e para os racistas em um dos muros na cidade de Veneza.

E com a Bienal de Veneza a cidade fica mais lotada ainda, e a cada ano aumenta o número de turistas, e diminui o número de moradores. Quando eu estava vindo pra cá fiquei sabendo que o artista Banksy gerou polêmica durante a abertura da Bienal. Ele passou secretamente pela cidade, e no seu Instagram disse: “Apesar de ser o maior e mais prestigiado evento de arte do mundo, por algum motivo, nunca fui convidado.” O artista então fez sua própria manifestação contra o turismo de massa em Veneza. A obra possui nove telas dispostas sobre cavaletes, formando a imagem de um enorme cruzeiro, rodeado por gôndolas, que percorre diariamente os canais de Veneza, passando diante de seus monumentos.

Além da referida instalação, Banksy deixou também um grafite em um palácio veneziano no Canal Grande. A imagem é de uma criança imigrante segurando um sinalizador pedindo socorro no mar , e assim fez uma reflexão e uma denúncia, típica de sua história artística.

Pra quem nunca ouviu falar de Banksy ele é o pseudônimo de um artista misterioso que pinta pelas ruas das cidades do mundo. A maioria das suas obras são provocativas e com inspirações sociais e políticas.

Visitar a Bienal pra mim foi um grande privilégio de mergulhar no mundo da arte contemporânea, vendo com meus próprios olhos a visão de mundo dos gênios contemporâneos.

Informações úteis

Explorar os dois locais em apenas um dia foi extremamente cansativo e por isso não recomendo. Então divida em, no mínimo, dois dias para conhecer com mais qualidade. A gente rodou muito pelo Arsenale, mas chegamos ao Giardini no final da tarde bastante cansados, então essa visita ficou bastante prejudicada.

Iara descansando na Bienal

Existem vários tipos de ingresso, sendo que o ticket mais comum permite uma entrada para o setor Arsenale e uma entrada para o setor Giardini. Você poderá usar esse ingresso para visitar os setores em dias diferentes, pena que a gente não tinha muito tempo.
Outras exibições menores estão pela cidade. Então vale muito a pena baixar o mapa da Biennale disponível no próprio site, assim você combina sua programação turística em Veneza com as demais exibições, indo nas obras de interesse.

Pausa para o almoço, no próprio restaurante da Bienal, na Arsenale

Tenha em mente que se você sair do local da exposição não consegue voltar mais (só pagando outro ingresso), e você vai encontrar um enorme acervo de obras e exposições, então, tudo vai depender da sua disponibilidade de tempo. Portanto, pesquise antes sobre os artistas, suas obras e onde elas estão localizadas. Eu queria muito ter visto a representação do Brasil na Bienal, e também sair procurando o referido grafitti de Banksy pelos Canais, mas não consegui.

Outra coisa, evite a tentação de vir caminhando até a Biennale e guarde suas energias para visitar a exposição, pois você vai andar até seus pés doerem! Vá de Vaporetto e desça na paradas Arsenale ou Giardini, dependendo de onde você iniciar sua visita. A gente desceu numa estação antes, porque caminhar por ali é muitíssimo agradável, mas essa energia toda fez falta no final do dia. Hahaha.

Pelos arredores da Bienal

Claro que no final de tudo, se sobrar energia, voltar a pé caminhando ao longo dos canais vale super a pena, pois ali é uma Veneza com muita personalidade, sem o famigerado turismo de massa.

Pelas ruas de Veneza admirando os tradicionais varais carregados de roupas e história

Você pode ver a programação e até comprar os ingressos para Bienal de Veneza no site oficial.

E aí pessoal? O que a arte te desperta? Interessados em ver as incríveis obras da Bienal de Artes de Veneza? Corra que ainda dá tempo!

Europa Itália

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